WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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Casario dos anos 1920 e 1930 é colocado à venda na zona sul do Rio

Negócio deve impulsionar revitalização de conjunto no Largo do Boticário, que poderá se tornar polo gastronômico e cultural

Mariana Durão, O Estado de S. Paulo

30 de março de 2016 | 03h00

RIO - Herdeira dos fundadores do extinto diário Correio da Manhã, Sybil Bittencourt, de 86 anos, pôs à venda o casario em estilo neocolonial erguido pela família ao longo dos anos 1920 e 1930 no bucólico Largo do Boticário, no Cosme Velho, zona sul do Rio.

A deterioração do conjunto arquitetônico, tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural (Inepac) em 1990 e considerado Área de Proteção (Apac) do município, é foco de tensão entre a prefeitura carioca e a proprietária há pelo menos uma década.

Após seis meses de negociação, Sybil assinou contrato de exclusividade com a Sergio Castro Imóveis, que já procura investidores interessados. O negócio tende a impulsionar a revitalização do espaço, que poderá se tornar um polo gastronômico e cultural, embora sejam necessárias mudanças na legislação sobre bens tombados.

O Estado visitou o Largo do Boticário, assim batizado porque para lá se mudou em 1831 o boticário Luís da Silva Souto, que tinha a família real como principal cliente. Apenas duas das seis casas estão ocupadas por Sybil, que preferiu não dar entrevista, e seis empregados.

As estreitas fachadas coloridas dos imóveis 30, 28, 26 e 20 - dois deles abrigam mais duas casas na parte interna, somando seis - escondem terrenos amplos, cercados por Mata Atlântica e com mais de um prédio em alguns casos. Originalmente térreas, as casas construídas no século 18 foram reformadas pela família Bittencourt.

Apesar do péssimo estado de conservação, com paredes descascadas, mofo e escadas apodrecidas, as casas ainda preservam detalhes que tornam a visita uma viagem no tempo. Isso porque os Bittencourts aproveitaram material de demolição da parte antiga do centro da cidade, como a Praça Onze, da época da abertura da Avenida Presidente Vargas. 

Os salões têm azulejos, portas e traves de jacarandá, ferragens, lampiões e figuras de louças, como as telhas pintadas à mão no pátio da casa 20, a maior de todas.

A imobiliária pediu um levantamento arquitetônico do terreno. Só a área construída é estimada em 2,8 mil metros quadrados. De acordo com Claudio Castro, dono da Sergio Castro Imóveis, as seis casas estão avaliadas em R$ 18 milhões e já há conversas em curso com quatro fundos de investimento. 

Os novos proprietários deverão arcar ainda com os custos da restauração do casario, estimados em R$ 8 milhões. Há ainda dívidas de IPTU e multas por má conservação acumuladas por Sybil nos últimos anos, que deverão ser abatidas do preço.

Residencial. O interesse dos compradores poderá esbarrar em restrições legais ao uso dos imóveis do Largo do Boticário, hoje exclusivamente residencial. Castro diz que há vontade política da prefeitura para flexibilizar a ocupação, mas a solução proposta ainda exige a aprovação de um projeto de lei complementar parado na Câmara dos Vereadores, o PLC 85/2012, que já recebeu várias emendas.

Apesar de ter sido incluído no Programa Carioca Local, lançado em 2015 para incentivar projetos em áreas ociosas, o projeto de lei ainda está na primeira fase de discussão. O texto prevê que edificações tombadas possam ser destinadas à instalação de estabelecimentos como cafés, bistrôs, pousadas, galerias de arte, livrarias e pequenas lojas.

"Vemos com muito bons olhos a possibilidade de uma solução de mercado para esses imóveis. Sem dúvida precisamos da aprovação desse projeto de lei", disse Washington Fajardo, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade.

Uma das medidas em estudo pela pasta para incentivar o investimento privado no Boticário é converter o Terminal Rodoviário do Cosme Velho, que tem ligação com uma das casas à venda, em ponto de acesso e receptivo de veículos de turismo. A área fica ao lado da estação do Trem do Corcovado, que leva a um dos principais cartões postais do Rio.  

Nos últimos anos, a prefeitura pressionou Sybil a deixar o local. Além do projeto de lei, o município editou decreto declarando a área de interesse público. A desapropriação dependeria de pagamento de indenização pela prefeitura e, por isso, nunca saiu do papel.

Nesse meio tempo, famílias sem-teto chegaram a invadir durante quase dois anos uma das casas do Largo, que traz os seguintes dizeres na placa de bronze instalada em seu epicentro: "Vós que moraes nêste recanto, sob a bênção da água e do silêncio, lembrai-vos que de vós depende o encanto daqui". O texto é de Majoy, pseudônimo adotado por Sylvia Bittencourt, mãe de Sybil, no Correio da Manhã.

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