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Coleção brasileira sobre Guerra do Paraguai recebe premiação da Unesco

Material de oito instituições receberá certificado equivalente ao prêmio conhecido como Patrimônio da Humanidade; mapas, fotografias e desenhos fazem parte de acervo

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Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

08 de setembro de 2016 | 03h00

RIO - A coleção de fotografias, desenhos e mapas sobre a Guerra do Paraguai de oito instituições brasileiras recebe em outubro o certificado do Programa Memória do Mundo da Unesco, premiação para conjuntos de documentos e bibliográficos que equivale ao prêmio conhecido como Patrimônio da Humanidade. Ocorrido entre 1865 e 1870, o conflito travado entre o Paraguai e a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) é considerado o mais sangrento da América Latina e deixou 300 mil paraguaios mortos.

Muitos dos documentos reconhecidos agora como Memória do Mundo não estavam disponíveis para pesquisadores e para o público em geral. São mapas e plantas de operações militares do Arquivo Histórico do Exército, estudos do pintor Vitor Meirelles para a obra Combate Naval do Riachuelo, que pertencem ao Museu Nacional de Belas Artes, e fotografias, como a do Conde D’Eu em Vila do Rosario, no Uruguai, em janeiro de 1870, do acervo do Museu Imperial de Petrópolis.

Da diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, saiu o desenho que ilustra o dossiê de candidatura dos documentos referentes à Guerra do Paraguai. Mostra um soldado negro, sobre um cavalo, atravessando um rio. O desenho é de autoria do pintor italiano Eduardo de Martino, encarregado por d. Pedro II de registrar batalhas.

“Ele era literalmente um correspondente de guerra. Acompanhou batalhas, desenhava o que via e depois documentava na forma de litografia. Esse registro é importante porque trata dos escravos que foram para a guerra. Eles ganhavam a alforria. Então, não lutavam em nome do país, mas para conquistar a liberdade”, afirmou o diretor do Museu Imperial, Maurício Vicente Ferreira Júnior.

“Uma boa parte desse material ainda não foi disponibilizada para pesquisadores da guerra nem para o público. A decisão dos relevantes museus brasileiros, arquivos e bibliotecas de apresentar uma proposta conjunta para o programa da Unesco para Memória do Mundo, no sentido de conseguir apoio para a conservação, preservação, catalogação e digitalização das fontes documentais, cartográficas e iconográficas relacionadas à Guerra do Paraguai, deve ser aplaudida e tem meu apoio entusiasmado”, escreveu o brasilianista britânico Leslie Bethel, no dossiê de candidatura.

Partiu de Ferreira Júnior a ideia de fazer uma proposta conjunta à Unesco para o reconhecimento do material. Além das oito instituições brasileiras, reuniu duas uruguaias – o Museu Histórico Nacional e a Biblioteca Nacional do Uruguai (BNU), que receberam seus certificados em março. Partiu da BNU uma das imagens mais emblemáticas deste conjunto: fotografia da companhia inglesa Bate & Co mostra uma pilha de corpos de paraguaios.

O diretor do Museu Imperial também procurou instituições argentinas e paraguaias. “A Argentina não tinha gente para trabalhar o acervo, fazer o levantamento, justificar. O Paraguai ficou avaliando se deveria entrar ou não. Avaliou positivamente, mas a resposta chegou na semana da submissão da candidatura. Não se organizaram em tempo hábil”, explicou Ferreira Júnior.

Reconhecimento. A partir do reconhecimento da Unesco, as instituições se preparam para digitalizar seus acervos e disponibilizá-los para o público. Parte desse material, como os que pertencem ao Museu Imperial e à Biblioteca Nacional, já está em meio digital.

“A historiografia da Guerra do Paraguai alcançou uma maturidade. A primeira fase foi de apologia, preocupada em enaltecer os militares como os grandes heróis da guerra. Depois, nos anos 60, a historiografia tentou desconstruir essa lógica. Agora temos uma historiografia equilibrada. É o momento apropriado para disponibilizar e promover reflexão científica sobre o processo da guerra. É um coroamento da maturidade da historiografia brasileira e das instituições”, afirmou Ferreira Júnior.

As oito instituições brasileiras que receberão o certificado serão o Arquivo Histórico do Exército, o Arquivo Nacional, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, a Fundação Biblioteca Nacional, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o Ministério das Relações Exteriores – Escritório de Representação no Rio de Janeiro, o Museu Histórico Nacional, o Museu Imperial e o Museu Nacional de Belas Artes. A cerimônia ocorrerá em 18 de outubro, no Arquivo Nacional, no Centro do Rio.

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