MARCOS DE PAULA/ESTADÃO
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Com menos verba, escolas de samba deveriam se reinventar, dizem estudiosos

Segundo pesquisadores, agremiações estão valorizando o carnaval-espetáculo em detrimento de elementos como o samba-enredo, a cadência da bateria e o samba no pé

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

07 Julho 2017 | 19h28

RIO - O ano de 2017 deveria ser um ponto de inflexão nos desfiles das grandes escolas de samba do Rio, que já contam 85 carnavais. A avaliação é de pesquisadores do assunto ouvidos pela reportagem do Estado. O balanço da festa foi dramático, com dois acidentes com carros alegóricos de gravidade jamais vista (uma pessoa morreu e 30 ficaram feridas), seguidos de um julgamento suspeito: as duas agremiações que os provocaram acabaram salvas de punições severas, e o campeonato foi dividido, em abril, entre outras duas.

Passados quatro meses da folia, outro sobressalto: sem qualquer negociação prévia, e contrariando promessa feita ano passado na campanha eleitoral, o novo prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), anunciou que o valor concedido para a preparação dos desfiles será agora R$ 1 milhão por escola, e não mais R$ 2 milhões. A decisão foi comunicada oficialmente por ele aos dirigentes - que haviam ameaçado não desfilar em 2018 - semana passada. Crivella marcou novo encontro sobre o mesmo assunto para a última segunda-feira, 3, e, depois, desmarcou.

O desfecho carnavalesco já seria suficiente para que as agremiações se repensassem, acreditam estudiosos da festa. Isso porque os acidentes, de responsabilidade do Paraíso do Tuiuti, cujo abre-alas matou uma radialista, esmagada contra a grade do setor 1 do sambódromo, e da Unidos da Tijuca, que viu o piso de um carro desabar por completo, com componentes em cima, guardam relação com o gigantismo que os desfiles assumiram nas últimas décadas, o que requer cada vez mais recursos. E também, apontam os pesquisadores, são reflexos da primazia do carnaval-espetáculo em detrimento da tradição, que valoriza mais elementos como o samba-enredo, a cadência da bateria e o samba no pé.

A redução da subvenção da prefeitura do Rio - seis dias depois, anunciada pelo prefeito João Doria (PSDB) em São Paulo - poderia estar sendo encarada como mais um momento de autoanálise das escolas, defende a pesquisadora Rachel Valença. “Ainda que o prefeito esteja agindo motivado por interesses próprios, o corte da subvenção poderia levar à reflexão: se não há tanto dinheiro para a parafernália, vamos simplificar”, analisa Rachel, observadora dos desfiles desde os anos 1960.

O afastamento das escolas do público vem sendo percebido pelas reações de endosso da população à medida do prefeito, que alegou precisar da verba do carnaval para investir em creches públicas, criando uma falsa dicotomia entre o supérfluo (o carnaval) e o necessário (a educação). Esse distanciamento, que contrasta com a histórico envolvimento afetivo dos cariocas com as agremiações, coincide com a espetacularização dos desfiles, além da elitização do sambódromo e das quadras das escolas, diz o jornalista Fábio Fabato, autor de livros sobre este universo.

“Estão matando a galinha dos ovos de ouro. O discurso do prefeito é demagógico e burro, mas as escolas, por outro lado, estão esquecendo de seus aspectos fundadores, que têm a ver com a transmissão de saberes. Foi justamente por isso que elas se tornaram entidades relevantes para a cultura do País, espelhos de seu entorno”, opina Fabato.

O fato de Crivella ser bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) não deve ser subestimado neste debate sobre a redução do aporte municipal, lembra o historiador Luiz Antonio Simas, pensador do carnaval. A religião demoniza a festa, por entender ser esta uma época dos “prazeres da carne”. Crivella não compareceu ao sambódromo, como fizeram seus antecessores.

Simas atenta para a necessidade de se reavaliar a forma como os desfiles são geridos, sob a lógica do turismo e do entretenimento, e não da cultura. Marcelo Alves, presidente da Riotur, órgão municipal que administra o sambódromo, não quis dar entrevista. Ele já declarou que quer o envolvimento de empresas privadas na festa, a fim de triplicar o rendimento da prefeitura com o carnaval. Para ele, faz-se necessária a criação de “um grande projeto de marketing”.

“O carnaval dá sinais de crise de gestão há certo tempo, o que chegou ao ápice este ano. As escolas só pensam na questão financeira, e não refletem por que se isolaram da população. Dão um tiro no pé”, aponta Simas. “Houve um tempo em que os discos dos sambas-enredos eram tão aguardados quanto os do Roberto Carlos. As escolas desfilavam porque existiam. Hoje, para existir, precisam desfilar.”

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