Herdeiro político do pai, Dr. Jairinho tem votos em região de milícia e foi líder de Paes e Crivella

Jairo Souza Santos Júnior foi preso na manhã desta quinta-feira, 8, no âmbito do inquérito que investiga morte de seu enteado Henry Borel Medeiros, de 4 anos

Caio Sartori e Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2021 | 08h54
Atualizado 08 de abril de 2021 | 20h08

Correções: 08/04/2021 | 17h51

RIO - Três dias após a divulgação da morte suspeita do menino Henry Borel, de 4 anos, seu padrasto, o vereador Jairo Souza Santos Júnior (Solidariedade), mais conhecido como Dr. Jairinho, foi empossado para o Conselho de Ética da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. A posse em 11 de março, no início das investigações sobre o episódio chocante e sob apuração policial, ilustra a força do político.

O médico de 43 anos tem no nome de urna um sinal da linhagem que o elegeu. Seu pai é o suplente de deputado estadual Coronel Jairo, um PM da reserva que foi parlamentar de 2003 a 2018. O ex-deputado foi citado na CPI das Milícias  da Alerj como supostamente ligado à Liga da Justiça. Dez anos depois, passou pela cadeia, levado pela Operação Furna da Onça. Jairo, o Velho, repudia as acusações e nega ter cometido crimes.

Dr Jairinho está em seu quinto mandato como vereador. Começou em 2004, aos 27 anos,  pelo PSC, no figurino de homem público banalizado no Rio nas últimas décadas, quando se tornaram comuns no  Estado  as carreiras politicas impulsionadas por laços de família. Jairo, o Moço, elegeu-se na mesma base do pai deputado, com centro em Bangu, Realengo, Padre Miguel, na zona oeste da capital fluminense. Desde então, não perdeu nenhuma eleição para a Câmara. Disputou mais dois pleitos -  em 2008 e 2012   - , pelo mesmo PSC. Depois, concorreu pelo MDB e obteve o último mandato pelo Solidariedade, que anunciou agora examinar sua “expulsão sumária”.

Em 2020, Dr.  Jairinho foi o vigésimo-oitavo mais votado para o Legislativo carioca, com 16.061 votos. Sem muita nitidez ideológica e com CRM ativo desde julho de 2004, foi líder dos governos (passado) de Eduardo Paes  (DEM) e de Marcelo Crivella (Republicanos).

Ainda estava na liderança de Crivella na Câmara  quando, no segundo turno da eleição do ano passado, participou de um evento de apoio a Paes. Quase literalmente, “jogou” em casa, no Ginásio Jairo Souza Santos, batizado com o nome do pai, no Ceres Futebol Clube. É uma pequena agremiação suburbana, que  Coronel Jairo preside e que Jairinho frequentou desde a juventude. Ali pediu que votassem no hoje prefeito.

 Àquela altura, a eleição para a prefeitura do Rio era, para os políticos mais experientes da cidade, “jogo jogado”. Pesquisas davam grande vantagem ao demista. O vereador rapidamente voltou ao velho aliado, que o aceitou sem restrições. Afinal, a proximidade do poder lhe garante a presença em inaugurações da prefeitura, que rendem votos. Como ocorreu no Bairro Maravilha Oeste, no IAPI de Padre Miguel, em 25 de outubro de 2016, registrada no YouTube. Na gravação,  Dr. Jairinho aparece sorridente, falando ao microfone.

“Quando eu vejo a galera andando de skate aqui nestas ruas, quando eu vejo as crianças aqui participando, e o bairro se sentindo valorizado, as pessoas gostando de estar morando (sic) aqui, eu fico mais feliz”, discursou Jairinho, ao lado do então secretário-executivo de Coordenação de Governo, Pedro Paulo Carvalho. Na produção, há imagens de crianças brincando em uma pracinha,  e Pedro Paulo, o político mais ligado a Eduardo Paes, parece, algumas vezes, desconfortável.

Na mesma região onde Dr. Jairinho e o pai colhem votos, milicianos atuam. No Jardim Batam, em Realengo, em 2008, uma equipe do jornal O Dia, que se infiltrara na comunidade para fazer uma reportagem sobre a milícia, foi capturada pelos criminosos. Os três profissionais foram torturados, ameaçados de morte e posteriormente perseguidos pelos bandidos. Investigações da Polícia Civil não conseguiram provas de envolvimento de políticos da região nesses crimes.

Dr. Jairinho tinha cargos importantes na Câmara

Em seus dezesseis anos na Câmara,  Dr. Jairinho ocupou postos de destaque, além das lideranças dos governos Paes e Crivella. Foi presidente de Comissão de Educação, vice da Comissão de Saúde, presidente da Comissão Especial do Plano Diretor do Município. Também foi primeiro-secretário da instituição.

Pessoalmente, destaca-se pelos cuidados pessoais. Veste ternos bem cortados e de excelente qualidade e dá especial atenção ao cabelo, que penteia com frequência, e mantém a barba aparada. Polido e contido, não passa emoções a seus interlocutores. Alguns colegas, reservadamente, preferem manter distância  do político da zona oeste.

Nas últimas semanas, depois da morte de Henry, surgiram contra o vereador denúncias de supostos atos de violência. Ex-namoradas denunciaram agressões e ameaças, contra si mesmas e contra crianças. A defesa do político rebateu as acusações. Em petição à 16ª DP (Barra da Tijuca), chegou a falar que  uma ex-namorada queria se vingar de Dr. Jairinho e o atacava com “calúnias”. Os depoimentos com supostas agressões contra menores de idade, porém, geraram investigações na Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV). Também lá o vereador, agora preso, terá de se explicar.

Correções
08/04/2021 | 17h51

Uma versão anterior desta reportagem informava erroneamente que Jairinho tinha sido o 16º vereador mais votado. O dado correto é que ele foi o 28º mais votado. A reportagem foi corrigida.

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Dr. Jairinho e mãe de Henry Borel são presos no Rio pela morte do menino

A Polícia suspeita que a criança tenha morrido depois de ser submetido pelo padrasto a uma sessão de torturas, com o conhecimento da mãe

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2021 | 07h32
Atualizado 08 de abril de 2021 | 10h07

RIO - Policiais da 16ª DP (Barra da Tijuca) prenderam na manhã desta quinta-feira, 8, o vereador da capital fluminense Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho (Solidariedade), e a companheira com quem vivia, a professora Monique Medeiros. As prisões temporárias ocorreram no inquérito que apura a morte do filho dela, Henry Borel Medeiros, de 4 anos, em 8 de março. A  Polícia cumpriu mandados de prisão temporária expedidos pela juíza Elizabeth Louro Machado, do II Tribunal do Júri do Rio. A Polícia sustenta que o menino morreu após ser agredido pelo político, que era seu padrasto. Detido em Bangu, na zona oeste, o casal ficará preso, inicialmente, por 30 dias. Segundo os policiais, os dois atrapalhavam as investigações, intimidando testemunhas e combinando versões.

Henry morreu no Hospital Barra D’Or, na Barra da Tijuca. Foi levado para lá pelo casal, que alegava tê-lo encontrado desmaiado no quarto onde a criança dormia. O menino estaria com olhos revirados, pés e mãos geladas e dificuldades para respirar.  Segundo os médicos, o garoto chegou ao estabelecimento em parada cardiorrespiratória. No Instituto Médico-Legal, a necropsia constatou múltiplos sinais de trauma, como equimoses, hemorragia interna e ferimentos no fígado, típicos de agressão. A Polícia suspeita que Henry tenha morrido depois de ser submetido por Dr. Jairinho a uma sessão de torturas, com o conhecimento de Monique. À Polícia, o casal afirmou suspeitar que o menino tivesse se ferido em uma queda. Os ferimentos, contudo, não são compatíveis com isso.

A vereadora Teresa Bergher (Cidadania), do Conselho de Ética da Câmara Muncipal do Rio,  pedirá ainda nesta quinta que Dr Jairinho seja afastado do mandato. O conselho se reunirá as 18 horas, na sala das comissões da Câmara. Jairinho ingressou no Conselho de Ética em 11 de março, três dias após a morte do menino. Se for afastado, o seu suplente no conselho e o vereadoe Luiz Ramos filho (PMN).

“Precisa ser afastado imediatamente. Pela imagem da casa, pela credibilidade de cada um de nós vereadores e por respeito a esta criança vítima de um cruel assassinato e a toda a população que representamos”, diz Teresa.

Vereador ligou para o governador após a morte

Depois da morte do menino, Dr. Jairinho telefonou para o governador Claudio Castro (PSC) e relatou o ocorrido, segundo o jornal O Globo. Castro afirmou ter dito que o caso seria investigado pelas autoridades responsáveis, sem interferências. Há relatos de que o vereador teria procurado outras autoridades. Nas investigações, a Polícia colheu depoimentos de outras agressões supostamente cometidas pelo político, envolvendo mulheres e crianças. A defesa dele nega.

Dr. Jairinho é filho do ex-deputado estadual Coronel Jairo (SDD), que foi preso na Operação Furna da Onça e atualmente é suplente na Assembleia Legislativa do Rio.

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