Pilar Olivares/Reuters
Pilar Olivares/Reuters

Com tiroteios frequentes, moradores de favelas do Rio vivem rotina de medo

Segundo relatos, confrontos aumentaram desde o início do ano em comunidades como o Alemão, onde a menina Ágatha foi morta

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 09h00

RIO - Todo dia, Andreia Regina de Oliveira, uma auxiliar de serviços gerais de 48 anos moradora do Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro, tenta sair de casa para trabalhar por volta das 5h30. Nem sempre o consegue, por causa dos disparos - e, nos últimos meses, o problema tem ocorrido com mais frequência.

"Quando tem operação (policial), a essa hora já se escutam os tiros", contou ao Estado. "Aí preciso esperar acalmar. Só então vou para o trabalho."

Quem mora no Alemão, uma das regiões cariocas dominadas por facções criminosas, relata o recrudescimento, desde o início do ano, dos tiroteios, que já ocorriam no local anteriormente. O motivo é o aumento das ações policiais, com confrontos, às vezes de dia e em locais movimentados. Andreia conta que a orientação é a mesma para todos os quatro membros da família que dividem a casa: sair só quando a aparência é de tranquilidade.

"Nesta semana não teve operação ainda. E, quando tem, é mais tranquilo descer o morro. Mas nos últimos meses aumentou muito."

Os efeitos chegam a outras áreas da cidade. A escola onde Ágatha Félix, de 8 anos - que morreu após ser baleada na sexta-feira -, dançava balé ficou fechada em duas quartas-feiras neste mês por causa de tiroteios no Alemão. Fica em Inhaúma, uma região que geralmente registra confrontos, mas boa parte de seus frequentadores vem do Alemão. E era justamente com o intuito de evitar que eles fossem atingidos por bala perdida que a escola se manteve fechada.

"A sensação que tenho é de impotência, porque a vida dela foi tirada brutalmente. A gente cancela as aulas em dias de operações policiais justamente para evitar que os alunos corram riscos. A Ágatha tinha aulas às quartas e acabou morrendo outro dia", lamenta Aline Xavier, professora de balé da menina e diretora do Centro de Danças e Lutas Pró-Arte.

A escola funciona há 15 anos e trabalha com preços populares - a mensalidade é R$ 60. Isso permite que boa parte dos seus cerca de 100 alunos venha de comunidades pobres, como o Alemão.  Nos últimos tempos, Aline percebeu um aumento no número de tiroteios naquele conjunto de favelas.

"Tem tido uma piora. Essa questão das ações com diversas forças policiais tem feito com que muitas crianças não consigam ir à escola. E não é só lá, várias outras na região têm fechado em dias de tiroteio", comenta a professora de dança.

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Nesta semana não teve operação ainda. E, quando tem, é mais tranquilo descer o morro. Mas nos últimos meses aumentou muito
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Andreia Regina de Oliveira, moradora do Complexo do Alemão

Tragédias como a de Ágatha acontecem todos os dias, diz professora

Em outro conjunto de favelas da zona norte do Rio, o aumento nos tiroteios também é nítido.

"No último ano piorou muito. Tem mais violência, mais operação, tiroteio todos os dias. São operações sem pé nem cabeça. A impressão que tenho é que entram na favela sem saber o que fazer", diz Yvonne Bezerra de Mello, fundadora do Projeto Uerê, que há 21 anos funciona no Complexo da Maré.

O Uerê trabalha com crianças e adolescentes em situação de risco. Hoje, cerca de 300 frequentam as atividades do projeto, orientadas por 22 funcionários - metade deles da própria Maré. 

"(A violência) aumentou muito. Mas quem trabalha nesses lugares não tem que ter medo", considera Yvonne.

Em maio, os responsáveis pelo Uerê colocaram uma placa no teto do local que abriga o projeto: "Escola. Não atire. Projeto Uerê", dizia a mensagem. Ela era voltada para os helicópteros da polícia que sobrevoam a região em dias de operação.

Segundo Yvonne, tragédias como a morte de Ágatha, são comuns. "Acontece todos os dias."

Desde o início do ano, foram 17 crianças baleadas, com 5 mortes, segundo a Plataforma Fogo Cruzado, que monitora tiroteios.

"(As operações) não são nada organizadas. Você entra, atira de qualquer maneira. Não tem como não ter feridos ou mortos, tanto na polícia quanto na população."

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(As operações) não são nada organizadas. Você entra, atira de qualquer maneira. Não tem como não ter feridos ou mortos
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Yvonne Bezerra de Mello, fundadora do Projeto Uerê

Witzel quer distribuir cartilha para orientar morador sobre operações policiais

Em meio ao ambiente de insegurança, o governador Wilson Witzel (PSC) anunciou que pretende lançar uma cartilha para orientar moradores de áreas conflagradas sobre como agir em dias de operações policiais, como mostrou o jornal O Globo nesta terça-feira, 24. A promessa de Witzel é que as ações da PM irão se intensificar nos próximos meses.

Em nota, a Secretaria de Polícia Militar declarou que suas operações "são pautadas por planejamento prévio e executadas dentro da lei, sempre com a preocupação de preservar vidas". Ressaltou, porém, que muitas vezes "os criminosos fazem opção pelo enfrentamento, dano início ao confronto".

"Nas ações em áreas conflagradas, a missão da Polícia Militar é primordialmente a prisão de criminosos e apreensão de armas e drogas. Essa prioridade pode ser comprovada pelo saldo operacional dos oito primeiros meses. Até segunda-feira, 23, foram apreendidas mais de 5.880 armas de fogo, entre as quais 397 fuzis. O número de fuzis retirados de circulação nesse período já é superior ao registrado em todo o ano passado. Nesses oito primeiros meses, 31 mil criminosos foram presos, o que representa uma média de cinco prisões a cada hora do dia", diz outro trecho do comunicado.

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