Comando da PM do Rio critica investigação do Ministério Público

Chefes da polícia discordam de apuração sobre evolução patrimonial deles e não pouparam nem mesmo a Secretaria de Segurança

TIAGO ROGERO, O Estado de S. Paulo

26 de setembro de 2014 | 13h13

RIO - Os três homens mais importantes na hierarquia da Polícia Militar do Rio de Janeiro criticaram nesta sexta-feira, 26, a investigação aberta nesta quinta-feira, 25, pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) sobre a evolução patrimonial de cada um deles. Em entrevista coletiva na manhã desta sexta-feira, sobrou crítica até para a Secretaria Estadual de Segurança (Seseg), à qual é subordinada a PM. Os coronéis rechaçaram envolvimento com o suposto esquema de pagamento de propina ao Estado-Maior da corporação, denunciado por um dos 24 PMs presos na Operação Amigos S.A., em depoimento ao MP-RJ.

O MP-RJ decidiu começar a investigação depois que a Corregedoria-Geral Unificada (CGU) das Polícias se negou a abrir sindicância para investigar os patrimônios do comandante-geral da PM, coronel José Luis Castro, do chefe do Estado-Maior Administrativo, coronel Ricardo Coutinho Pacheco, e do chefe do Estado-Maior Operacional, coronel Paulo Henrique Azevedo de Moraes. 

Na entrevista, José Luis Castro reiterou que não pretende deixar o cargo. "Eu não pedi para sair e em momento algum isso passou pela minha cabeça", afirmou o militar. O PM disse estar convicto de que o MP-RJ não encontrará elementos que liguem ele ou os demais integrantes da cúpula da Polícia Militar ao esquema criminoso desarticulado pela Amigos S.A.

"Estou muito tranquilo e tenho certeza que não encontrarão. Se houvesse alguma coisa, certamente nós já teríamos sido presos na semana passada", disse o comandante-geral da PM.

O chefe do Estado-Maior Operacional criticou a Seseg. "Já foi dito pelo subsecretário de Inteligência (Fábio Galvão) que, para a investigação prosseguir, entendeu-se que o coronel (Alexandre) Fontenelle deveria ser mantido do cargo."

Preso na semana passada, Fontenelle é acusado de liderar a quadrilha e ocupava - por indicação de comandante José Luis Castro - um dos mais importantes cargos da PM: chefiava o Comando de Operações Especiais (COE), que compreende o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e o Choque.

Durante a investigação, mesmo após surgirem evidências de seu envolvimento com o esquema de cobrança de propina a comerciantes de Bangu, Fontenelle foi mantido no COE. "Decisão essa tomada pela Secretaria de Segurança e não pelo nosso comando", afirmou o coronel Moraes.

Ainda segundo ele, "se há algum questionamento da manutenção do coronel Fontenelle na função, isso deve ser feito a aqueles que decidiram continuar a informação sem reportar esse dado  (envolvimento dele com a quadrilha) ao comando da PM". "Isso aqui não é balcão de negócios", afirmou o policial, que afirmou estar revoltado com a investigação do MP-RJ.

"Parte-se de uma fala de uma pessoa que ouviu dizer que anos atrás aconteceu um suposto esquema", disse o coronel Moraes sobre o depoimento do PM, solto após conceder as informações ao MP-RJ, beneficiado pela delação premiada.

O comandante-geral da PM também criticou a investigação própria instaurada pelo MP-RJ. "Quando há uma possível denúncia de um promotor, quem investiga é um promotor", disse José Luis Castro. Logo depois, entretanto, o PM afirmou que não vê como problema o MP-RJ ter assumido a investigação.

"Os promotores são sérios, criteriosos e respeitadores da lei. Fico muito tranquilo porque o Inquérito Policial Militar que instauramos já seria acompanhado pelo MP-RJ, e agora será também pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado)", declarou o coronel Castro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.