RICARDO MORAES/REUTERS
RICARDO MORAES/REUTERS

Complexo do Salgueiro: operações policiais violentas não abalam domínio do tráfico em área do RJ

Região marcada pela miséria às margens da Baía de Guanabara vive pressão entre ações policiais truculentas e traficantes armados. Morte de oito pessoas nesta semana está sob investigação das autoridades

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2021 | 15h00

RIO - À beira da Baía de Guanabara e localizado em uma região marcada pela miséria, o Complexo do Salgueiro é habitado por trabalhadores pobres que vivem sob pressão de traficantes armados e de policiais que deveriam prendê-los – mas que com frequência deixam um rastro de civis mortos em ações que viram alvo de inquéritos da própria Polícia.

Foi o que aconteceu no último fim de semana, quando integrantes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar fluminense fizeram uma operação na comunidade. Buscavam os matadores do sargento Leandro Rumbelsperger da Silva. Depois da ação policial, oito corpos foram resgatados da lama, em um manguezal da região. Uma nona vítima morreu, depois de socorrida. 

Investigações foram instauradas para apurar em que circunstâncias as mortes aconteceram. Organizações da sociedade civil cobraram transparência e responsabilização pelo caso, cujas suspeitas recaem sobre a atuação policial. Especialistas destacam a necessidade de se entender se a operação ocorreu em um caráter ilegal de vingança após a morte do sargento no local no sábado passado. 

"Eu moro no complexo do Salgueiro, milhares de outras pessoas também. Se tivéssemos condições financeiras, estaríamos morando em condomínios na Barra (da Tijuca)", afirmou, em uma rede social, uma moradora, na segunda-feira, 22.

Naquele dia, os oito corpos foram retirados do  manguezal. O resgate do lamaçal foi feito por parentes dos mortos: os bombeiros alegaram falta de segurança para entrar na comunidade. Moradores denunciaram sinais de mutilação e tortura nos cadáveres.

Na comunidade de São Gonçalo, segundo município mais populoso do Estado, a presença constante de criminosos é facilitada pela geografia. Além de estar às margens da baía, o complexo fica à beira da Rio-Manilha (trecho da BR-101).

A localização facilita a entrada e saída de drogas, armas e outros produtos de origem criminosa – por exemplo, carga roubada. Policiais apontam Antônio Ilário Ferreira, o Rabicó, como chefe do bando que domina o Salgueiro. Atrás dos traficantes e ladrões, vêm os policiais – e as operações, muitas vezes apontadas como marcadas por violência desmedida, excessos ou crimes.

As ações da polícia são, em geral, o sinal mais forte – às vezes, o único – da presença do Estado na região, carente de serviços públicos.

Foi no Salgueiro – que não deve ser confundido com o morro homônimo, na capital fluminense - que, em 18 de maio de 2020, policiais mataram a tiros João Pedro Mattos. Era um garoto negro de 14 anos, fuzilado em casa; o corpo foi achado horas depois em um hospital. Já em novembro de 2017, oito pessoas foram mortas a tiros em ação do Exército e da Polícia Civil. O domínio dos criminosos, porém, parece não se abalar com as incursões dos agentes.

No Salgueiro, 60 mil moradores vivem em condições distintas

Não há dados oficiais, mas estimativas indicam que aproximadamente 60 mil pessoas moram na região. Apesar de muitas vezes ser referida simplesmente como favela do Salgueiro, a região é composta por localidades bem diferentes.

O bairro do Salgueiro tem casas em boas condições e infraestrutura melhor. É nas partes mais afastadas que há mais pobreza  e traficantes armados, circulando de forma ostensiva. 

Esse é o caso do mangue, onde os cadáveres foram encontrados. Barreira e Sítio são outros pontos da comunidade listados entre as mais pobres. Nessas localidades, há muitas famílias em vulnerabilidade social.

Com a ausência de investimentos do Estado no Salgueiro, muitas vezes falta no básico. Não são raros os relatos de moradores que não podem contar com refrigerador para preservar alimentos ou mesmo um ventilador para tentar se refrescar no calor, porque o fornecimento de energia é caótico. Assim, os "gatos" (ligações clandestinas) de luz são comuns – assim como  o risco que esse tipo de recurso acarreta.

Entrega de encomendas ou calçamento das ruas, cada vez mais esburacadas, praticamente inexistem. O argumento para o abandono é quase sempre o mesmo: o perigo oferecido por traficantes.

Nas redes sociais, moradores do Salgueiro relatam o medo constante que vivem. A insegurança é tão grande que mesmo a Polícia Civil só foi para o local, para começar a investigar a ação policial que resultou nas mortes, com apoio da Polícia Militar. Peritos e policiais civis não quiseram entrar sozinhos. Foi o mesmo argumento dos bombeiros para  demorar a resgatar os corpos.

"Moro no Complexo do Salgueiro e só me sinto seguro quando estou em casa ou na igreja orando", escreveu um morador, na semana passada, em uma rede social. /Colaborou Wilson Tosta

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