Confeitaria tradicional fecha no Rio

Proprietários da Manon não conseguiram negociar aluguel onde funcionou também a Cavé

Thaise Constâncio, O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2014 | 23h09

RIO - O charmoso imóvel em art nouveau, na esquina das Ruas Sete de Setembro e Uruguaiana, no centro do Rio, já não abriga a tradicional Confeitaria Manon. A loja funcionava no mesmo prédio que, no passado, abrigou a também tradicional Cavé, e foi fechada na segunda-feira, porque os proprietários não conseguiram arcar com o novo valor do aluguel, que passou de R$ 20 mil para R$ 40 mil.

Há cinco anos, Fabíula Lopez, de 45 anos, e os dois sócios tentaram comprar o imóvel. As negociações fracassaram e o proprietário apresentou a proposta para dobrar o valor do aluguel. Após mais de um ano de conversas, os empresários se viram obrigados a devolver a loja, que tinha faturamento mensal de R$ 120 mil e 30 funcionários para servir café da manhã e chá da tarde.

“Quem saiu perdendo foi o Rio. Agora, o ponto está deserto”, afirmou Fabíula, ressaltando que houve redução de clientes nas lojas ao redor. “A nossa confeitaria era um ‘brinquinho’, uma coisa delicada no meio da confusão de camelôs.”

Em 2004, Fabíula e os sócios assinaram o contrato para abrir a Confeitaria Manon na Rua Sete de Setembro. Construído em 1890, o imóvel foi tombado em 1987 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) com o nome de Casa Cavé e precisou de reformas estruturais. A Manon foi aberta no início de 2007, após os empresários gastarem R$ 1,2 milhão para restaurar a fachada, o interior e os imóveis, e manter as características originais.

Ao sair da loja, deixaram mesas, cadeiras e balcões restaurados e as réplicas dos lustres. Tudo pertence ao patrimônio cultural da cidade. Somente a louça pôde ser retirada. “Isso desanima outras pessoas que fazem esse tipo de restauração.”

Nas paredes, há placas de figuras importantes, como o imperador Pedro II, a cantora Chiquinha Gonzaga e o ex-presidente Juscelino Kubitschek, que frequentavam os salões de chá da antiga Cavé, com espaço para cem pessoas. Era comum degustarem o tradicional madrileño (pão doce, com creme e uma ponta de goiabada) e o famoso pastel de Belém.

Na manhã desta quarta-feira, 23, os clientes que passavam pela Rua Sete de Setembro estavam perplexos com o fechamento da loja. “Com tradição e bom atendimento, a Manon conquistou um público fiel que agora está órfão”, avaliou o gerente José Aldo de Souza, de 54 anos. Cabia a ele indicar a outra unidade da confeitaria, na Rua do Ouvidor, a 180 metros.

“Levei um susto. A Manon é muito tradicional e não podia fechar assim”, disse Fátima Cuneo, de 60 anos, frequentadora há 30. Ela planejava almoçar bobó de camarão e comer madrileño na sobremesa com a mãe Maria Luiza Corrêa, de 84 anos. “Fiquei aliviada em saber que, pelo menos, teremos a loja da Ouvidor.”

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