Contraventor genro de Castor de Andrade é morto no Rio

Fernando Iggnácio Miranda estava dentro de um helicóptero e foi atingido por tiros de fuzil quando pousava em um heliponto no Recreio dos Bandeirantes

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2020 | 15h16

RIO - O contraventor Fernando Miranda Iggnácio, genro do bicheiro Castor de Andrade (1926-1997), foi morto a tiros de fuzil na tarde desta terça-feira, 10. Ele foi alvejado após desembarcar de um helicóptero em um heliponto no Recreio dos Bandeirantes (zona oeste do Rio).

Segundo a polícia, por volta das 13h15 Iggnácio chegou na aeronave, vindo de Angra dos Reis, no sul fluminense. O aparelho aterrissou no heliponto da empresa Heli-Rio, na Avenida das Américas. Quando caminhava para embarcar em um carro, foi atingido por tiros de fuzil. Até a publicação desta reportagem, ninguém havia sido preso nem identificado como suspeito do  crime.

A Delegacia de Homicídios acredita que o atirador apoiou-se no muro dos fundos do estacionamento do heliponto e atirou contra Iggnácio a cerca de cinco metros de distância. Uma grade encontrada apoiada na parede  teria servido como possível escada para o criminoso. Definir a posição de onde o tiro foi disparado e a provável rota de fuga permitirá que a polícia pesquise imagens de câmeras de segurança que tenham flagrado o atirador.

Castor de Andrade foi um dos mais famosos e poderosos bicheiros do Rio. Em 1997 morreu vítima de infarto fulminante. Seus herdeiros iniciaram uma disputa pelo controle dos pontos de jogo do bicho e de máquinas caça-níqueis. Os confrontos inicialmente opuseram o filho de Castor, Paulo de Andrade, e um sobrinho do contraventor, Rogério Andrade.

Paulo foi morto em 1998, em Vila Isabel, e Rogério chegou a ser investigado pelo crime. A partir de então, Fernando Iggnácio passou a disputar com Rogério o legado de Castor. A disputa se acirrou e, de 1999 a 2007, teria causado a morte de mais de 50 pessoas, segundo a polícia. Em 2010, um atentado cujo objetivo era matar Rogério Andrade causou a morte de um dos filhos dele, Diogo, de 17 anos. Uma bomba explodiu no carro em que ele estava, na Avenida das Américas, no Recreio dos Bandeirantes (mesma via em que ocorreu o crime desta terça-feira). Rogério, apesar de ferido, sobreviveu.


Recentemente, Iggnácio era investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) como suposto mandante da morte do ex-policial militar Anderson Cláudio da Silva, o Andinho, em 10 de abril de 2018, também no Recreio.

Política

O nome de Fernando Iggnácio vincula-se a investigações sobre suposto pagamento de propina do jogo do bicho a delegados da cúpula da Polícia Civil fluminense, nos anos 90 do século passado. Algumas suspeitas levantadas nessas investigações foram transformadas pelo candidato  do DEM à prefeitura carioca, Eduardo Paes, em arma na campanha eleitoral deste ano. O alvo é a postulante do PDT, Delegada Martha Rocha. Ela foi uma das policiais investigadas por suposto vínculo com a contravenção. Mas foi isenta de responsabilidade, segundo o ex-chefe da Polícia Civil naquela época, Hélio Luz.

Iggnácio foi preso em flagrante em 4 de novembro de 1993, ao tentar subornar o diretor do Departamento Geral de Polícia do Interior (DGPI), delegado Mário Covas, com US$ 7 mil (hoje, cerca de R$ 38 mil). O policial fingiu aceitar a oferta e montou uma operação para prender o suspeito com o dinheiro, no momento da entrega. O oferecimento da propina teria partido do delegado Inaldo Júlio Santana, chefe de gabinete do Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE), então chefiado por Martha. Inaldo, na época, disse ser inocente, mas chegou a ser demitido do serviço público, cerca de um ano depois. Não foram encontradas evidências de envolvimento de  Martha no caso.


Três anos depois, em 1996, Ana Cristina Bastos Moreira, ex-mulher de Castor, citou Martha em depoimento em investigação sobre corrupção policial pelo bicho. Luz afastou a delegada da chefia da 18ª D.P. (São Cristóvão). Uma investigação da Corregedoria da Polícia Civil, porém, não encontrou nenhuma irregularidade na conduta da delegada. Martha seguiu carreira normalmente e chegou a chefe da Polícia Civil. O resultado dessa investigação não é mencionado na propaganda eleitoral de Paes.

Após a veiculação da peça eleitoral, Luz divulgou uma carta em que afirma que “Martha nunca envolveu-se em corrupção do jogo do bicho”. Afirmou ainda no texto que a policial “foi vítima de falsas acusações e mentiras decorrentes da misoginia existente desde aquela época e, parece, até hoje”. A campanha de Martha recorreu à Justiça Eleitoral contra a propaganda veiculada pela coligação de Eduardo Paes. Ainda não há decisão judicial a respeito. Nesta terça, não quis se manifestar sobre Iggnácio. (Colaborou Caio Sartori).

 

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