WILTON JUNIOR/ESTADÃO - 25/11/2021
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Coral transforma a vida de pessoas em situação de rua

Projeto dá aulas de canto e teatro em sala do Museu do Amanhã, no Rio, para pessoas em vulnerabilidade social

André Borges, Wilton Junior e Gabriel Sayão, O Estado de S. Paulo

16 de dezembro de 2021 | 05h00

BRASÍLIA E RIO – Valéria Vieira Coelho enche o peito e abre os braços para soltar os versos de “É preciso saber viver”. A canção de Erasmo Carlos e Roberto Carlos ganha força com a voz de José Geraldo Matos. Próximo dele, Tomas Rubens, com seu sotaque argentino, também coloca energia para puxar o refrão da música. É um canto de resistência. São sobreviventes. O que mais buscam ali, de fato, é uma chance de saber viver. A música pode ser um atalho para isso. Estão todos em condição de extrema vulnerabilidade social, a maioria em situação de rua.

Nos corredores do Museu do Amanhã, no Rio, pessoas sem nenhuma perspectiva social buscam apoio para tentar mudar o hoje. É ali, numa das salas cedidas pelo museu, que acontecem os ensaios do “Corais Uma só Voz”, uma iniciativa da organização People's Palace Projects, da Universidade Queen Mary, de Londres.

Os ensaios semanais são liderados por Ricardo Branco. Em 2013, Branco conheceu a proposta social que já era realizada na Inglaterra. Músico, ele tinha largado uma banda de rock na capital carioca e estava à procura de algo que o motivasse para seguir em frente com a música. Decidiu entrar de cabeça no projeto para realizar a iniciativa no Brasil. Com alguns apoios, o projeto começou a ganhar corpo. Em 2016, o projeto fez parte das Olimpíadas Culturais do Rio e cantou na chegada da tocha olímpica no Cristo Redentor. Outras apresentações aconteceram no Museu de Arte Moderna e no Centro Cultural do Banco do Brasil. Desde então, passou a ser apoiado pelo Museu do Amanhã.

Todas as quartas-feiras, dezenas de pessoas em situação de rua têm aulas de teatro e canto, participam de atividades e ensaiam no espaço do museu. “Quando venho aqui, fico feliz. O mundo anda cheio de tristeza, mas aqui é só felicidade. Aqui a gente se sente melhor, levanta a nossa autoestima”, diz Valeria Vieira Coelho, que frequenta o coro desde o início. “Aqui é onde a gente consegue se levantar, porque lá fora é só cair. Eu me sentia sozinha, triste e oprimida. Quando estou no coral, me sinto melhor, sou uma pessoa melhor.”

Alimentos e roupas são doados às pessoas, mas a preocupação central é prover a arte. “A música é uma ferramenta de transformação de vidas. Não sabemos por que a pessoa está naquela situação, mas cada uma delas tem uma história. E aqui, essa história passar a ter valor, ela percebe que faz parte de algo”, diz o músico Ricardo Branco. “O que a gente percebe é que as coisas vão mudando para elas, as aspirações, a vontade de avançar. Pessoas que estavam nas ruas arrumaram um emprego, fizeram cursos. Tem gente que conheceu outra pessoa aqui e se casou.”

A cada ensaio, a cada música compartilhada, anônimos que perambulam solitários nas ruas do Rio, dormindo em becos e se alimentando como podem, passam a ganhar amigos, um ambiente onde compartilham um compromisso, com a sensação de pertencimento a algo.

“Acreditamos que o espaço cultural consegue ressignificar a cidade e a própria vida dessas pessoas. O espaço de um museu, que muitas vezes repele pessoas nessas situações, passa a ser um direito delas”, diz Fábio Moraes, mediador social do Museu do Amanhã.

José Geraldo Matos, 59 anos, desempregado, é um dos membros do coral que viram a vida mudar. “A gente passou a frequentar locais que, antes, a gente não tinha acesso, como o Cristo Redentor. Fizemos várias apresentações no Cristo, no Teatro Municipal. O coral trouxe outro patamar para a minha vida”, diz ele.

Morador de rua durante anos, Matos passou a ser frequentador assíduo do grupo. Com o tempo, reorganizou parte de sua. Hoje, voltou para casa. “Esse coral me deu outra visibilidade do mundo. Eu fiz cursos, sou jardineiro, tenho curso de ascensorista. Eu voltei para casa há quatro anos, me sinto bem.”

O coral tem hoje cerca de 40 membros. Alguns vão embora. Outros chegam. No auge da pandemia de covid-19, com a paralisação dos ensaios, o trabalho prosseguiu com doação de comida, água e roupas para as pessoas. “Foi desesperador. Em fevereiro do ano passado morreu um participante colombiano. As pessoas não tinham sequer como beber água. Foi um caos”, diz Ricardo Branco. A arte não ficou de lado. “Sempre levávamos um livro também. Mantivemos o grupo unido com bens básicos e arte.”

Os ensaios foram retomados no fim de outubro, após todos serem vacinados. Ricardo Branco diz que o principal objetivo da proposta é provocar, em cada pessoa que comparece aos encontros, uma reflexão. A música é o espaço do contato, da aproximação com outro, do enfrentamento da solidão e do abandono que marca o cotidiano dessas pessoas.

Os ensaios seguem firmes, diz Ricardo Branco, que sonha em ver a iniciativa se espalhar por outras cidades e Estados do País. O “Corais Uma só voz” entoa o coro que muitos ainda precisam ouvir. “A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte. A gente quer saída para qualquer parte.”

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