Corpo de Ryan Gracie é sepultado; irmã vai processar médico

O pai de Ryan, Róbson Gracie,criticou o poder público por não ter prestado socorro ao seu filho

Bruno Lousada,

16 de dezembro de 2007 | 19h45

A família do lutador de jiu-jítsu Ryan Gracie, encontrado morto numa cela da carceragem do 91.º Distrito Policial (na Leopoldina, zona oeste de São Paulo), vai processar o psiquiatra Sabino Ferreira de Farias Neto, que deu assistência ao rapaz logo após este ser preso na sexta-feira, acusado de roubo. Irmã do lutador, Flávia Gracie acusou o médico de "assassinar" Ryan, vítima provável de overdose, ao prescrever ao lutador um coquetel de remédios após o exame de corpo de delito e toxicológico no Instituto Médico-Legal. Ela também reclamou da omissão da polícia. Para Flávia, seu irmão, de 33 anos, tinha de ser internado em um hospital ao ser detido pelos agentes, pois estava drogado. "A polícia errou ao deixá-lo ficar na cela. Ele não era um preso, era um doente, precisava de tratamento", disse, no Cemitério São João Batista, em Botafogo (zona sul da cidade), onde o corpo de Ryan foi sepultado na tarde deste domingo, 16.  De acordo com Flávia, o médico disse que doparia Ryan para ele não criar problemas na delegacia, pois ia sofrer abstinência. Ela contou ter ficado preocupada ao ver seu irmão ingerir "um coquetel de tarja preta" e interpelou o médico, que, segundo ela, lhe assegurou que o lutador teria resistência para consumir "tantos medicamentos".  "Ele ainda me disse: se eu der a metade desse comprimido para você, entrará em coma, mas para o seu irmão dou um inteiro, pois ele é forte", afirmou Flávia, acrescentando que, depois de tomar os remédios, seu irmão não conseguia mais andar.  Ela explicou que chamou o médico às pressas para obter um laudo para atestar a dependência química do lutador, a fim de que Ryan fosse internado imediatamente, em vez de ficar na cela. Informou ter pago ainda R$ 5 mil pelo serviço. "No dia seguinte, ao saber da morte de Ryan, ele me pediu desculpas. É um safado, um vendido." Ela contou que o médico passou em sua casa, na madrugada de sábado, para cobrar a consulta e pedir que enviasse "R$ 100 para o carcereiro", para que o lutador fosse bem tratado na cadeia. "Paguei na mesma hora. Ele disse que as coisas funcionam assim mesmo nessa delegacia (91.º Distrito Policial ). E sugeriu que eu mandasse R$ 2. 500 para cada delegado." O pai de Ryan, Róbson Gracie, criticou o poder público. "Se o laudo apontou que meu filho tinha usado cocaína, crack e maconha, isso prova que ele precisava de socorro. E o poder público? Por que não levou o menino para o hospital?", questionou.  "Lamento mais uma vez esse País. Um pseudo-médico, um canalha matou meu filho. As coisas precisam mudar. Dá vontade de entrar no vaso e dar descarga", desabafou. "Nós vencemos o mundo inteiro. Em qualquer lugar, somos valorizados, aqui somos os escárnios".  Para Róbson, o filho não participou de nenhum roubo. Ele alegou que Ryan sofria de síndrome do pânico, achava que estava sendo perseguido e tentou fugir de qualquer forma. O jovem lutador foi preso como suspeito de roubar um carro e uma moto.  Abatido, Robson Gracie Filho, de 18 anos, que morava com Ryan há três anos em São Paulo, disse que o irmão era seu segundo pai. "Era um herói e o herói sempre passa por um momento de baixa. Vou lutar por ele sempre." Ryan deixou o filho Rayron, de 6 anos, 12 irmãos, os pais e 20 tios.

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