Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Crise faz restaurantes populares suspenderem refeições no Rio

Três serviram últimos pratos nesta quinta e outros 12 devem interromper atividades na semana que vem; Estado deve R$ 120 mi

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2016 | 14h05

RIO - Pelo menos três restaurantes populares do Estado, que fornecem refeições a R$ 2, servem nesta quinta-feira, 30, os últimos pratos. Outros 12 suspendem o serviço na semana que vem. As empresas fornecedoras alegam que o Estado deve R$ 120 milhões e que os atrasos dos repasses já dura 14 meses. Caso o encerramento do serviço se confirme, deixarão de ser servidas 37 mil refeições diárias. 

A empresa Home Bread, que fornece 7,8 mil refeições, é a primeira a suspender o atendimento. O último cardápio tem salsichão ao sugo com macarrão e suco de tangerina. Por causa da crise, sopa, sobremesa e o pão que acompanham a refeição já haviam sido cortados. O bife sumiu do bandejão. Deu lugar a opções mais baratas: moela, carne moída, almôndegas e salsichas passaram a ser oferecidos com mais frequência.

A empresa fornece refeições para o Restaurante Cidadão Betinho, na Central do Brasil, o primeiro do Estado, inaugurado em 2000, e para unidades do Méier, na zona norte, e Cidade de Deus, na zona oeste. Quatrocentos funcionários serão demitidos.

Por causa da crise, o Restaurante João Goulart, em Bonsucesso, na zona norte, onde são servidas 1,8 mil refeições diárias, ficou fechado por dois dias na semana passada, depois que a energia foi cortada.

"Vou tocar com o estoque que eu tenho. Não aguento até semana que vem. Quarta vou fechar", afirma Fábio Leite, representante da Première. "Nosso público é de pessoas de baixa renda, muitos idosos, aposentados, desempregados. Elas vão ficar sem alternativa."

O diretor do setor de alimentação da Associação das Empresas Prestadoras de Serviço do Estado (AEPS), Vagner Dantas, informou que foi feito um acordo com o governo do Estado para pagamento de duas parcelas, a cada 15 dias, até que os atrasados fossem quitados.

"Isso foi feito em maio, mas o Estado só conseguiu pagar uma parcela. Depois nada mais. O secretário Paulo Mello se comprometeu, mas não conseguiu cumprir. Ninguém suporta atraso de 14 meses sem pagamentos", afirmou ele.

De acordo com Dantas, houve um acordo em que o Bradesco ofereceu um empréstimo às empresas, como forma de saldar parte da dívida de 2014 do Estado. O governo se comprometeu a pagar as prestações. "Quando o Estado não paga a parcela, o banco retira da conta da empresa o que tem. As contas ficam com saldo negativo, e os juros são absurdos." 

Dantas é diretor comercial da Guelli, que serve refeições no restaurante de Campo Grande, na zona oeste. Por causa dos atrasos, o número de refeições servidas diariamente na unidade já havia sido reduzido de 3,7 mil para 2,8 mil. "Mês que vem não vou conseguir pagar os funcionários. Se o governo não acenar com o pagamento, o caminho será demitir funcionários."

Os restaurantes populares vão funcionar por mais dez dias. Esse foi o prazo pedido pelo secretário de Assistência Social e Direitos Humanos, Paulo Melo, para tentar regularizar a situação dos repasses atrasados para as empresas fornecedoras de refeições. De acordo com Melo, que interrompeu férias para resolver a crise, a dívida do Estado é de R$ 30 milhões, e não R$ 120 milhões, como as empresas divulgaram. “Já coloquei para o governador a minha condição: não volto para a secretaria se não resolver essas questões. Para muita gente, o Restaurante Cidadão é a garantia de ter pelo menos uma refeição balanceada por dia”, afirmou.

Os restaurantes foram criados para atender pessoas em risco de insegurança alimentar e nutricional. Seu público é formado por trabalhadores informais, desempregados, moradores de rua e aposentados. Por R$ 2, tem direito a uma refeição de 1 mil calorias composta por sopa, salada, prato principal com uma opção, guarnição, sobremesa e suco. O governo subsidia as refeições com valores que variam de R$ 3,85 a R$ 8,39, dependendo do contrato. Também são servidos café da manhã, a R$ 0,50.

As unidades funcionam de segunda a sexta-feira, das 10 horas às 15 horas. Em maio, a prefeitura de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, assumiu a operação do restaurante da cidade.

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