CV promoveu festa com lanche do McDonald’s após fuga de hospital

Fato em Bangu 3 foi informado a juiz, que considerou crime de ‘lesa-humanidade’ e mandou transferir 15 presos

Constança Rezende, O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2016 | 18h52

RIO - Criminosos da facção Comando Vermelho (CV) fizeram uma festa, com direito a lanches do McDonald's, nas galerias do presídio Bangu 3, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, zona oeste, para comemorar o resgate do traficante Nicolas Labre Pereira de Jesus, o Fat Family. Ele foi levado do Hospital Municipal Souza Aguiar, no centro, no último domingo, por cerca de 25 criminosos. Um homem que tinha ido buscar atendimento no hospital morreu e duas pessoas ficaram feridas. Nesta terça, a Polícia Civil informou ter identificado o criminoso que planejou o resgate de Fat Family e o comandante do batalhão responsável pela guarda do preso no hospital foi exonerado.

A realização da festa em Bangu 3 foi comunicada ao juiz Eduardo Oberg, da Vara de Execuções Penais (VEP), por agentes penitenciários. Segundo Oberg, a comemoração foi organizada quando os criminosos envolvidos no resgate mandaram áudio, pelo aplicativo WhatsApp, para Edson Pereira Firmino de Jesus, o Zaca, tio de Fat Family. Ele está preso nessa unidade.

Em nota, a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) divulgou que “os diretores e chefes de segurança que estavam de plantão no último domingo desconhecem qualquer tipo de comemoração”.

Oberg determinou a abertura de dez inquéritos na Delegacia de Homicídio (DH) e na Delegacia de Combate às Drogas (DCOD). Também foi informado ao juiz que entraram no complexo celulares, um roteador de 8 kg que possibilitava comunicação via wi-fi livre na região e munição.

“Diante da omissão da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária, determinei que cada um dos fatos narrados seja investigado. Esta comemoração é inadmissível, porque (o resgate), além de ferir duas pessoas, ainda matou um inocente. Para um juiz, isso é crime de lesa-humanidade”, disse o titular da VEP.

Oberg ordenou que 15 criminosos ligados ao CV sejam transferidos do complexo para presídios federais fora do Estado do Rio. De acordo com o juiz, as gravações de áudio com comemorações pelo resgate “evidenciam a necessidade de desarticulação imediata da quadrilha e seu constante monitoramento de modo rigoroso”.

Além de Zaca, serão transferidos Marcio Gomes Medeiros Roque (Marcinho do Turano), Marcelo Fonseca de Souza (Xará), Sandro Batista Rodrigues (Naiba), Aleksandro Rocha da Silva (Sam da Caico), Paulo César Souza dos Santos (Paulo Muleta), Isaías da Costa Rodrigues (Isaías do Borel), Leonardo Carlos da Silva (Leo da Kelson), Davi da Conceição Carvalho (Davi do Chapadão), Marcelo da Silva Guilherme (Marcelinho do Prazeres), Wilson Ferreira Cardozo (Bacalhau), Eliezer Miranda Joaquim (Criam), Arnaldo da Silva Dias (Naldo), Carlos Eduardo Rocha Freire Barboza (Kadu Playboy) e Francisco Eduardo Freire Barboza (Chico da Ecatur).

A Secretaria de Segurança do Estado não divulgou quando haverá as transferências. Os 15 criminosos continuam em Bangu, segundo a Seap.

Mandante identificado. A Polícia Civil afirma já ter identificado o criminoso responsável por planejar a invasão ao Hospital Souza Aguiar: Neversino Garcia de Jesus, o Nezinho do Vidigal, que estava com Fat Family quando ele foi preso em 13 de junho na favela Santo Amaro. Na ocasião, houve tiroteio entre traficantes e policiais. Nezinho conseguiu fugiu em uma motocicleta. Agora, estaria escondido na favela do Vidigal, zona sul.

A atuação criminosa de Nezinho é antiga. Em abril de 2004, ele liderou traficantes que invadiram a favela da Rocinha para tomar o controle da venda de drogas do então chefe, Lulu da Rocinha. O ataque dividiu o grupo de traficantes que dominava a Rocinha - antes eram todos integrantes da facção criminosa Comando Vermelho (CV), mas um grupo passou ao rival Amigo dos Amigos. Nezinho permanece fiel ao CV e hoje divide com Fat Family o controle do tráfico na Santo Amaro.

Exoneração. O comandante do 5º Batalhão, tenente-coronel Wagner Guerci Nunes, foi exonerado nesta terça pelo comandante-geral da PM, coronel Edson Duarte. O batalhão é responsável pelo policiamento na área do Souza Aguiar, onde ocorreu o resgate.

Policiais de 28 batalhões da PM realizaram nesta terça buscas por Fat Family e pelos criminosos que o resgataram em 40 favelas. Não foi divulgado o resultado da ação.

Bandidos comemoram resgate de traficante; ouça

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.