Antonio Lacerda/EFE
Antonio Lacerda/EFE

Da cadeia, ex-PM nega participação na execução de Marielle Franco

Advogados divulgaram carta escrita por ex-policial preso; testemunha afirma que ele estaria no carro dos assassinos da vereadora

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2018 | 16h09

RIO - Apontado por uma testemunha como um dos assassinos de Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, o ex-policial militar Orlando Oliveira de Araújo redigiu na quarta-feira, 9, uma carta de dentro da cadeia negando participação no caso. No texto, ele também afirmou não ter envolvimento com a milícia que atua na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.

A carta foi divulgada pela defesa do ex-PM nesta quinta-feira, 10. Segundo seus advogados, Araújo está sendo acusado por um policial com quem já trabalhou numa empresa de segurança.

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“Não tenho qualquer envolvimento com esse crime bárbaro e me coloco à disposição de todas as autoridades que apurarem esse caso para pessoalmente prestar esclarecimentos”, diz a carta, que desqualifica o relato da testemunha. Araújo divulga o nome do policial que fez a denúncia (não divulgada pelo Estado, pois está sob proteção) e diz que o homem não tem “qualquer credibilidade”.

Na carta, Araújo nega ter se encontrado com o vereador Marcello Siciliano (PHS) para tratar da encomenda da execução de Marielle, o que foi apontado pela testemunha. “Nunca estive com o vereador (Marcello) Siciliano em nenhuma oportunidade. Com todo respeito à vereadora Marielle, eu nunca tinha ouvido falar dela”.

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O ex-policial está preso em Bangu 9 desde outubro de 2017. A prisão é preventiva e os processos são referentes a um homicídio e a porte ilegal de arma. Segundo Renato Darlan, advogado de Araújo, ele é inocente nos dois casos. “É uma liderança comunitária. Está com muito medo de não ter voz para combater essas imputações direcionadas a ele, e se antecipou (com a carta)”, disse.

O advogado afirmou ainda que a testemunha – que seria miliciana, de acordo com Araújo – teria interesse na permanência do ex-PM na prisão. Os dois trabalharam juntos em segurança para empresas e Araújo teria se afastado quando soube que o colega estaria envolvido em práticas criminosas.

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Relato. Um PM e um ex-PM teriam participado do assassinato de Marielle e Gomes, disse à polícia a testemunha. Segundo o depoimento, o policial, atualmente está em atividade no batalhão do bairro de Olario e, o ex-PM, que trabalhou no batalhão do Complexo da Maré, duas áreas conflagradas da capital, estariam no carro (um Cobalt prata) usado pelos assassinos de Marielle. A informação foi divulgada pelo jornal O Globo.

Assim como outras duas pessoas que também estavam no carro e apontadas pela testemunha, o policial e o ex-policial são investigados pela Delegacia de Homicídios e que já teriam participado de crimes semelhantes. Os quatro seriam ligados a Araújo, que, por sua vez, é sócio do vereador Siciliano, de acordo com a testemunha. O vereador, ela disse, mandou matar Marielle porque ela estava “atrapalhando” a milícia na zona oeste. A polícia já investigava a possibilidade de participação de milícias no duplo homicídio.

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Na quarta-feira, 9, o vereador desqualificou o depoimento da testemunha que o acusou de ter envolvimento na morte da vereadora. Ele disse que se trata de um “factoide” e que nunca teve desentendimentos políticos com Marielle. “Quero expressar minha indignação como ser humano. Estou perplexo. Minha relação com a Marielle era muito boa. Estou sendo massacrado nas redes sociais. Mais do que nunca, quero que o caso seja resolvido” disse.

A denúncia da testemunha, publicada também pelo jornal O Globo, aponta ainda que o vereador participou no ano passado se reuniu em um restaurante no Recreio com Araújo, no qual teria dito sobre Marielle: “Precisamos resolver isso logo”. Araújo foi apontado como chefe de uma milícia em Curicica, na zona oeste, e teria negócios com o Siciliano na região. O ex-PM era ligado ao jogo do bicho e depois se associou à milícia, segundo investigações do Ministério Público.

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Siciliano é empresário da área de construção civil e tem como reduto eleitoral Vargem Grande e Vargem Pequena, nesta mesma área da cidade, onde se estabeleceu há 20 anos. A milícia vem avançando nos últimos anos nos dois bairros, extorquindo moradores e comerciantes e construindo edifícios para aluguel, segundo investigações do Ministério Público. A área enfrenta crescimento populacional. Já foi considerada “neutra”, ou seja, sem dominação de traficantes, e acabou sendo “encampada” por milicianos. 

A testemunha contou que foi coagida a trabalhar com Araújo. Disse que o vereador e o miliciano se encontraram quatro vezes. Numa das ocasiões, Marielle teria sido chamada por Siciliano de “piranha do Freixo”, alusão ao deputado Marcelo Freixo (PSOL), com quem a vereadora trabalhou por dez anos na Assembleia Legislativa do Rio- inclusive durante a CPI das Milícia - antes de se eleger em 2016.

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O assassinato, pela versão da testemunha, teria como motivação as ações políticas de Marielle em favelas da zona oeste sob o jugo da milícia, segundo a denúncia. Ela se opôs a um projeto de verticalização de Rio das Pedras, favela da zona oeste, o que teria desagradado milicianos, e apoiou moradores da Cidade de Deus em questões locais, disse a testemunha.

Colegas do PSOL, no entanto, disseram que Marielle não teve protagonismo nesses locais. Seu  mandato era pautado pela defesa de populações das favelas, de negras e mulheres, mas sem se vincular a comunidades específicas.

O crime foi na noite de 14 de março. Marielle estava de carro e levou quatro tiros na cabeça. Seu motorista morreu por estar na linha de tiro. Na noite desta quinta-feira, será feita reconstituição, na área central do Rio. O local já está sendo preparado para a reprodução, que usará arma e munição verdadeira, para que as condições sejam reproduzidas da forma mais aproximada possível daquela noite.

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