Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Decadência do centro do Rio fica maior na pandemia

Avanço do coronavírus amplifica problemas na região e leva ao fechamento de icônicos comércios

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2021 | 11h00

RIO - Desde que foi fundada, em 1894, a Chapelaria Alberto, no centro do Rio de Janeiro, foi bem frequentada. “Nessa cadeira em que você está já sentou muita gente importante”, disse, no fim de dezembro, o atual proprietário, Luís Eduardo Fadel, ao Estadão. Comentário semelhante ao feito por Rita Nava, que comanda a Casa Villarino, não muito longe dali. “Foi aqui que o Vinícius (de Moraes) encontrou o Tom (Jobim) pela primeira vez”, orgulhou-se. Talvez nem tenha percebido o trocadilho, possível desde a década de 1950, com os dois compositores celebrizados por “Garota de Ipanema”.

Mas nenhum dos dois estabelecimentos - tanto a chapelaria que atravessou duas viradas de século como o bar que foi um dos berços da Bossa Nova - resistiu ao ano marcado pela pandemia de covid-19. Ambas encerraram as suas atividades. O mesmo aconteceu com dezenas de outros pequenos negócios no centro carioca, nos últimos meses. Em algumas ruas da região, como a Buenos Aires e a Alfândega - localizadas no núcleo histórico do Rio - é possível ver vários imóveis, um ao lado do outro, com portas de aço cerradas. Em algumas, há placas de “aluga-se”, outros nem isso.

“Eu não digo que é um fechamento. Por ora, é uma suspensão das atividades por seis meses”, comenta Rita, do Villarino. Fadel, que desde a década de 1980 cuida da chapelaria fundada pela família pouco após a Proclamação da República, parece mais cético. “O Rio de Janeiro viveu uma grande era como Cidade Maravilhosa, mas não é mais”, constata.

Fadel deu entrevista sentado em uma cadeira que, segundo afirmou, existe desde os primórdios da loja. Do período de glamour, resistiram apenas duas delas e uma mesa que exibe fotos antigas dos tempos do auge da chapelaria. Nas prateleiras, poucos e belos chapéus e algumas peças de vestuário masculino. As paredes externas da loja estão pichadas, e a região é dominada por camelôs. Vendem quinquilharias e fazem pequenos consertos, como a troca de baterias de relógios. Perto dali, fica o camelódromo da Uruguaiana - às vezes, alvo de batidas policiais, em busca de mercadorias ilegais.

Há algumas décadas, a Chapelaria também vivia da venda de roupas e pijamas, mas na última semana de atividades eles já eram bem poucos. Enquanto a equipe do Estadão estava no local, um homem bem trajado (e de chapéu) chegou procurando por um pijama de flanela. “Acabou o que tínhamos”, informou Fadel. Pouco depois, um cliente na casa dos 30 anos e de bermuda entrou para tentar comprar um chapéu panamá. “A fábrica não mandou mais”, informou, enquanto o potencial cliente provava um exemplar maior que a cabeça.

No Villarino, o aviso de suspensão das atividades foi colado junto à porta em novembro. A proprietária abriu o estabelecimento para conversar com o Estadão em um início de tarde pouco movimentado no centro. As mesas vazias e as poucas luzes acesas levaram um ar melancólico ao bar. O estabelecimento atravessou décadas em meio a comemorações e happy hours de artistas da música e do teatro, jornalistas, advogados, funcionários do consulado dos Estados Unidos, políticos importantes.

Antes mesmo da pandemia, Rita já buscava investidores para manter o bar, cuja clientela visivelmente diminuía. Os frequentadores também mudavam de perfil. Se antes o estabelecimento era conhecido pelo vinho e uísque, nas últimas décadas o que saía mesmo eram chope e cerveja.

A pandemia obrigou Rita a fechar - ou, como diz, “suspender” - a Casa Villarino. Todos os nove funcionários foram demitidos ("nós pagamos as verbas rescisórias tudo certinho", ressaltou). Receberam a promessa de que poderão ser recontratados caso surja um investidor ou a situação melhore.

“Temos que esperar a vacina, e que as pessoas sejam vacinadas”, ponderou Rita.

Fadel, da Chapelaria Alberto, também nutre um pouco de esperança de que apareça alguém disposto a preservar a história. Sabe, porém, que, no seu caso, a chance de reabrir a casa é mais difícil. Sabe que os hábitos mudaram, o centro carioca também.

"Antes o centro era realmente um centro. As pessoas vinham passear, tinha grandes lojas, cinemas, restaurantes. Final de semana aqui era efervescente", recorda. "Agora virou isso, mas não foi de uma hora pra outra", complementou.

O "isso" do comerciante se refere a ruas maltratadas e sujas, centenas de lojas fechadas, paredes pichadas e calçadas lotadas de ambulantes, a maioria deles irregulares. Houve também expansão dos moradores de rua. Alguns passaram a morar em paradas de ônibus, que ganham “paredes” improvisadas com caixotes e cobertores. Alguns cozinham ao ar livre.

A decadência do centro do Rio não é novidade, mas se agravou a partir de março de 2020. Foi quando a decretação do home office por empresas sediadas na região, por causa da pandemia, esvaziou rapidamente as ruas dali. Com o posterior afrouxamento, parte do movimento voltou. Algumas empresas, porém, adotaram definitivamente o trabalho em casa, mais barato e facilitado pela digitalização. Isso contribuiu para perenizar o esvaziamento do centro carioca, principalmente no eixo da Avenida Rio Branco e transversais.

Requalificação

A nova administração do prefeito Eduardo Paes (DEM) tenta buscar soluções para o problema. Dentre os mais de 70 decretos publicados no primeiro dia de governo, um deles criou o “Grupo de Trabalho de Requalificação do Centro do Rio de Janeiro”, com o prazo de 120 dias para apresentar um plano. O grupo envolve, ao todo, 18 secretarias de governo ou órgãos da administração.

Entre empresários, o comércio informal é visto como um dos grandes entraves à recuperação da região. Levantamento da Fecomércio-RJ aponta que dois terços deles veem esse ponto como principal obstáculo. Os vendedores ambulantes que tomaram a região não pagam impostos, não têm custos com  aluguéis e funcionários e vendem mercadorias a preços bem abaixo do mercado, o que sugeriria procedência duvidosa.

"Antes mesmo da pandemia, o centro do Rio já vinha se degradando por conta desse crescimento massivo e desordenado da informalidade", diz o diretor do Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises (IFec-RJ), João Gomes.

Dados do IFec-RJ mostram que, a partir de 2014, o Estado apresentou um crescimento acelerado de informais, sendo que o ano de 2017 foi especialmente atípico.

"Coincide com o fim dos grandes eventos esportivos na cidade, a crise dos royalties do petróleo, atrasos no pagamento de servidores e prisão de gestores públicos. A segurança desandou de vez, tanto que tivemos até uma intervenção federal", recordou Gomes.

Estimativas da Fecomércio-RJ também mostram que nos últimos tempos o total de consumidores que aderiram ou aumentaram o interesse pelo comércio ou serviços online cresceu entre 1,5 milhão e dois milhões de pessoas no Estado. A digitalização do comércio provavelmente também teve impacto no resultado financeiro de estabelecimentos tradicionais, que demoraram a migrar seus negócios para o mundo digital.

Internet

Fadel, porém, aponta a decadência do Rio – e não o comércio eletrônico, como creem alguns - como fundamental para as dificuldades que enfrentou nos últimos anos.

"A gente tem clientes fiéis, de décadas. Alguns vêm aqui porque aprenderam a vir com o avô. E comprar chapéu é igual comprar sapato: você olha, acha bonito, mas é só depois de provar que descobre se fica bem ou não", explicou. "Não dá para comprar isso pela internet."

A certeza de que a internet não é culpada pelo ocaso de uma loja com 126 anos de vida e que é patrimônio imaterial do Rio pode ser observada por sua presença (ou falta dela) na rede. O site da chapelaria é simples, e a página no Facebook só aparece em marcações de alguns clientes. Mas uma busca pela loja no Google é certeira do ponto de visita físico. "Normalmente não muito movimentado", diz o buscador sobre a loja.

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