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Delegados fazem paralisação contra cortes e atrasos

Serviços como registro de ocorrência e investigações foram suspensos temporariamente; perícias de homicídio são mantidas

Clarissa Thomé e Constança Rezende, O Estado de S. Paulo

27 de junho de 2016 | 11h41

RIO - Delegados da Polícia Civil fazem paralisação nesta segunda-feira, 27, para protestar contra o corte do orçamento e atraso nos salários. Até as 16 horas, serviços como registros de ocorrência e investigações estão suspensas. As perícias em casos de homicídio serão mantidas.

"Relutamos muito para não penalizar a população. Estaríamos penalizando muito mais se nos calássemos diante do quadro que estamos nos deparando", afirmou o delegado Rafael Barcia, presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia Civil. (Sindelpol). "Hoje, falta de salário a itens de higiene. Os policiais estão desmotivados, preocupados com as suas contas."  

Segundo Barcia, as delegacias têm passado por "problemas gravíssimos". Os policiais têm se cotizado para pagar desde material de limpeza à comida de presos, que ficam custodiados temporariamente nas delegacias. Havia um cartão-alimentação, que permitia ao delegado comprar alimentação para esse preso, mas o benefício foi cortado. "Hoje policial faz vaquinha para tudo. E isso com salário pela metade", afirmou. 

No último pagamento, o governo depositou R$ 1.000 mais a metade do que falta para completar o salário integral do servidor. A outra parcela não tem previsão para ser paga. De acordo com Barcia, a paralisação teve adesão de delegacias do centro, da zona sul, da zona norte, além da Cidade da Polícia, que concentra as especializadas, como Delegacia de Combate às Drogas, Roubos e Furtos de Carga e Roubos e Furtos de Automóveis. 

Nesta tarde, cerca de 150 policiais estão reunidos em frente ao prédio da Chefia de Polícia, na Lapa, região central.  Vestidos de preto, eles levam cartazes com inscrições como “Polícia sem salário e efetivo” e “Polícia abandonada, cidadão abandonado”. Entre as reivindicações estão a revogação das isenções fiscais a grupos empresariais, a extinção de funções gratificadas no funcionalismo público estadual e a apuração de eventuais desvios financeiros no Rio Previdência, a empresa de previdência privada do serviço público fluminense.

“Não queremos radicalizar o momento. Mas o governo está nos levando a isso. Ainda vamos avaliar quais serão os próximos passos. Nossa preocupação é com a sociedade”, disse o presidente da Coligação dos Policiais Civis do Rio, Fábio Neira. “Hoje, os policiais estão impossibilitados de fazer registros de ocorrência sem transporte e armas adequados”, afirmou ele. A previsão é de que o grupo saia pelo Centro do Rio em protesto ainda nesta tarde.

A vitrinista Daniela Pedrosa, de 39 anos, contou que não conseguiu registrar o furto de celular e carteira ocorrido na sexta-feira, 24, em um bar na Lapa. Por causa da paralisação dos policiais civis, ela foi orientada a fazer pré-registro pela internet e voltar à 5° Delegacia de Polícia (Centro) em sete dias.

O policial que a atendeu explicou que, além da paralisação, não havia papel nem tinta para imprimir o registro de ocorrência. "Eu me sinto totalmente desamparada. A cidade já não tem segurança e quando você procura a polícia, que é quem devia te ajudar, você não encontra apoio. É tudo absurdo ", afirmou. Daniela conseguiu bloquear celular e os cartões de crédito e débito. Mas teme que os dados sejam usados por estelionatários. "Eu queria fazer o registro para me resguardar", explicou.

A orientação às delegacias é  registrar apenas casos graves. "O policial está desmotivado. Tem delegacia que está recorrendo a doações. Eu sou contra. Não vou ficar mendigando ajuda se o Estado não quer dar estrutura ", afirmou o delegado Gilberto Carvalho, ex- chefe de Polícia Civil e titular da Delegacia do Consumidor (Decon).

No comunicado, a Polícia Civil declarou que “entende que a reivindicação dos policiais civis é justa e devidamente motivada em razão das dificuldades enfrentadas por esses importantes operadores de segurança pública”. Acrescentou que “não pode desconsiderar a defesa irrefreável da sociedade em face da criminalidade”.

“Assim, a Chefia de Polícia está avaliando, com os diretores gerais, a adesão do movimento, já tendo combinado com estes que o delegado titular da respectiva unidade avaliará a complexidade de ocorrências apresentadas e tomará as providências para o registro e demais medidas legais necessárias ao encarceramento de criminosos presos em flagrante”, diz a nota.

 

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