Descida de policiais para o ‘asfalto’ divide tropa

Há quem se anime diante da falta de estrutura nas comunidades; outros temem perder benefícios ao sair das unidades

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

07 Setembro 2017 | 03h00

RIO - Policiais de UPPs ouvidos pelo Estado disseram que a tropa está dividida quanto à redução do efetivo nas favelas. Há quem tenha se animado para deixar as comunidades, por se sentir acuado com a alta da violência. Outros temem um cenário de vulnerabilidade ainda maior. 

E policiais que têm salário mais baixo não querem perder benefícios, como dinheiro para alimentação e bônus - o valor varia conforme a patente. “Eu fiquei feliz, porque (a redução) fará cair a mortandade. Para quem puder sair vai ser um alívio. Os contêineres (postos improvisados) são insalubres, é um acampamento permanente; os coletes estão sempre sujos e são reusados coletivamente; e as armas não têm manutenção”, disse um soldado que trabalha há quatro anos em uma UPP da zona norte onde a anunciada pacificação nunca se deu. 

“Os bandidos sabem das nossas condições ruins. Estamos em desvantagem o tempo todo. Foi tentado o contato amistoso, mas a prefeitura não colaborou com projetos sociais, e a população continuou à mercê dos ‘Robin Hoods’ do tráfico”, afirmou um colega.

A redução no contingente de PMs dedicado a atividades administrativas nas UPPs e sua incorporação aos batalhões das áreas foram anunciadas pelo secretário Roberto Sá. A medida foi definida com base em um diagnóstico das 38 unidades do Estado, que revelou a perda de controle da polícia em até um terço das áreas abarcadas. Ao assumir a pasta, há dez meses, com a saída do “pai das UPPs”, José Mariano Beltrame, Sá já reconhecera a necessidade de reavaliação. 

As entidades de classe estão em alerta. “Que garantias temos de que o efetivo operacional não será reduzido, como estão dizendo? Quem está no front vai ser sacrificado”, criticou o tenente da reserva Nilton da Silva, representante do grupo SOS Polícia. A entrevista foi concedida ainda quando o número de policiais mortos no Estado em 2017 estava em 99. Hoje, chega a 101.

Reflexo. As UPPs afetaram positivamente as taxas de óbitos de PMs em serviço até dois anos atrás. Em 2009, eram 63,1 mortos a cada 100 mil PMs; em 2015, a taxa havia caído para 47,6. Já em 2016, chegou a 82,4 a cada 100 mil. A alta mortandade coincide com o período de aprofundamento da crise financeira do Estado - até hoje parte dos policiais não recebeu o décimo terceiro salário de 2016. 

2 PERGUNTAS PARA...

Silvia Ramos, cientista social e pesquisadora de UPPs

1. Agora que as UPPs vão perder 1/3 de seus PMs, o que fica da experiência?

Neste momento em que o fim das UPPs parece se aproximar, o mais melancólico é que a polícia esteja utilizando o mesmo script que nós já sabemos que não dá certo. É um retorno a 20 anos atrás, trocando tiros com o varejo do tráfico.

2. Por que acontecem tantos tiroteios em áreas com UPPs?

Os criminosos atiram na direção dos policiais a distância, e vice-versa, para não perderem uma guerra de moral, para não serem desmoralizados, esculachados. É um jeito fácil de desestabilizar a UPP. É como se fosse uma briga de gangue. A polícia é presa fácil dessas provocações, responde no piloto automático. 

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