AFP PHOTO/Rio de Janeiro Municipal Chamber/Mario Vasconcellos
AFP PHOTO/Rio de Janeiro Municipal Chamber/Mario Vasconcellos

Dono de bar no Rio é levado para delegacia durante homenagem a Marielle

Policial rodoviário presente ao local interrompeu roda de samba que homenageava a vereadora questionando sobre as mortes de policiais; após bate-boca, ele voltou armado e conduziu o proprietário para registro de ocorrência policial

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

19 Março 2018 | 12h10

RIO - Conhecido pelas animadas rodas de samba, o bar Bip-Bip, em Copacabana, na zona sul do Rio, foi cenário de uma ação policial controversa na noite deste domingo, 18. Músicos e o dono do estabelecimento, Alfredo Melo, conhecido como Alfredinho pelos frequentadores, faziam uma rápida homenagem à vereadora Marielle Franco (PSOL), executada na quarta-feira, 14, quando um policial rodoviário federal os interrompeu gritando: "E os 200 policiais mortos, como é que ficam?".

Deu-se início a uma sequência de provocações, conforme relatos compartilhados nas redes sociais, e o policial foi embora. Meia hora depois, ele voltou, exibindo uma pistola na cintura e fazendo ameaças aos presentes. Ele determinou o fim da roda de samba e exigiu conduzir Alfredinho para registro de ocorrência policial. A PM foi chamada e o caso acabou na delegacia. 

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Segundo relatou o cliente Jean Marc Schwartzenberg no Facebook, os PMs se colocaram a favor do policial rodoviário. "Nós, que numa sociedade normal deveríamos ficar aliviados pela chegada da polícia, vimos logo que estes dariam 'preferência' ao colega. Corporativismo flagrante. O provocador se fez de vítima, ficou muito tempo conversando com os policiais - a esta altura já eram três viaturas - e no final exigiu que o Alfredinho fosse até a delegacia", descreveu.

"Eu sou policial rodoviário federal e o dono do bar é o meu conduzido", disse o policial, conforme escreveu Schwartzenberg. "O sujeito virou toda a história ao avesso e se colocou no papel de vítima de ameaças (ele chegou, sim, a levar um tapa de um dos frequentadores, mais cedo, quando insistia nas agressões verbais)", continuou. 

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A reportagem procurou a PRF e a PM. A PRF informou que "inicialmente, não houve nenhum registro de comportamento que configure desvio de conduta funcional, representando tão somente atitudes e opiniões pessoais do servidor". Disse ainda que "não houve nenhum registro de utilização de arma de fogo ou quaisquer outros acessórios policiais". 

A corporação afirmou que "opiniões e atitudes da vida privada dos servidores não representam o posicionamento da instituição" e que se "solidariza com os familiares da vereadora assassinada, assim como de todas as vítimas da violência, e não medirá esforços para auxiliar na prisão dos envolvidos no caso".

A PM divulgou apenas que policiais do batalhão de Copacabana foram acionados "para verificar uma ocorrência de agressão" e que o policial rodoviário "alegou que foi agredido por frequentadores" do bar.

O jornalista Tiago Prata, que também estava no bar, acompanhou Alfredinho à delegacia e disse que o policial rodoviário acabou registrando a ocorrência como lesão corporal, tendo o comerciante como testemunha. Segundo ele, a confusão começou por volta das 22 horas e Alfredo só foi liberado depois das 2 horas. 

O caso foi inicialmente tratado na 12ª Delegacia Policial (Copacabana), depois foi remetido à 13ª Delegacia Policial (também Copacabana) e, por fim, à 14ª Delegacia Policial (Leblon). A reportagem questionou a Polícia Civil por que isso aconteceu, mas ainda não obteve resposta.

A vereadora Marielle Franco, que pautava seu mandato pela defesa dos direitos humanos, vem sendo difamada nas redes sociais desde que foi assassinada. Notícias falsas compartilhadas nas redes sociais a caluniam de "defender bandidos" e não policiais mortos, o que já foi rebatido por parentes de policiais e por pessoas que trabalhavam com ela - Marielle, na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, não só amparava famílias, mas também participou da criação de um protocolo de atendimento a elas.

A PRF informou que uma equipe foi chamada ao bar pela PM e se dirigiu à delegacia, "para apurar os fatos e possíveis desvios de conduta do servidor", e que "nenhuma viatura esteve no bar", como publicado em redes sociais. A corporação informou que a corregedoria da PRF abriu uma investigação preliminar sobre o caso.

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