Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Doutor Jairinho é denunciado por torturar filha de ex-namorada

Inquérito que investigou o caso foi concluído e encaminhado ao MP-RJ, que já providenciou a denúncia

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2021 | 21h26

RIO - O médico e vereador do Rio de Janeiro Jairo Souza Santos, o doutor Jairinho (sem partido), de 43 anos, foi denunciado nesta sexta-feira, 30, pelo Ministério Público do Estado do Rio (MP-RJ) por tortura praticada nos anos de 2011 e 2012 contra uma menina de  4 anos, filha de uma então namorada dele. O inquérito que investigou o caso foi concluído também nesta sexta-feira e encaminhado ao MP-RJ, que já providenciou a denúncia. Acusado de infringir o artigo 1º, inciso II, da lei 9.455/97, Jairinho, se for condenado, pode ser condenado a 10 anos e 8 meses de prisão. Ele está preso temporariamente desde 8 de abril e acusado de agredir até a morte seu enteado Henry Borel, de 4 anos, em 8 de março, na Barra da Tijuca (zona oeste do Rio).

Segundo a denúncia feita pela 2ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Territorial da área Bangu e Campo Grande do Núcleo Rio de Janeiro à 2ª Vara Criminal de Bangu, Jairinho submeteu a vítima a intenso sofrimento físico e mental, como forma de castigo pessoal. O documento relata que o vereador aproveitava-se do fato de manter um relacionamento amoroso com a mãe da criança para, nas oportunidades em que se encontrava sozinho com ela, torturá-la física e mentalmente. “Tem-se que o denunciado batia com a cabeça da vítima contra diversos lugares, chutava e desferia socos contra a barriga da criança, além de afundá-la na piscina colocando seu pé sobre sua barriga, afogando-a, e de torcer seu braço”, descreve a denúncia.

Ainda como forma de castigo, o vereador afirmava para a menina que ela atrapalhava sua mãe e que a relação do casal seria mais fácil “sem ela no meio”, demonstrando o ódio que o denunciado nutria pela criança.

A prisão temporária de Jairinho, decretada em função da investigação sobre a morte de Henry Borel, termina em 8 de maio, mas é possível que seja então ordenada sua prisão preventiva.

Quanto ao caso da tortura cometida na década passada, a denúncia pede que, caso o denunciado seja posto em liberdade, compareça mensalmente ao juízo, no prazo e nas condições fixadas pelo juiz, para justificar atividades, seja proibido de se aproximar e manter contato com a vítima e seus familiares, em especial os parentes que figuram como testemunha nos autos, e seja proibido de se ausentar do município sem prévia comunicação ao Juízo.

"Estranho a rapidez do MP", afirmou o advogado de Jairinho, Braz Sant’Anna, sobre a denúncia. Ele disse ainda que, para tecer mais comentários, precisa ler a denúncia, o que não havia feito até o momento em que foi procurado pela reportagem. Após o indiciamento, na tarde desta sexta, Sant’Anna havia dito que o indiciamento realizado pela Polícia Civil ainda poderia ser alterado pelo MP-RJ, por isso era "melhor aguardar o entendimento do promotor".

O caso

A vítima do crime de tortura pelo qual Jairinho foi denunciado é a filha de uma cabeleireira que conheceu Jairinho em 2010 e manteve um relacionamento com ele até 2013. Nesse intervalo, chegaram a ficar noivos. A menina, que à época tinha de 3 a 5 anos e hoje tem 13, disse que o vereador bateu a cabeça dela contra a parede do box de um banheiro e pisou sobre o corpo dela no fundo de uma piscina, tentando impedir que ela emergisse para respirar.

“À época, essa criança tinha entre 3 e 5 anos. Essa criança sofreu uma série de violências e até tortura", disse o delegado Felipe Curi, diretor do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE), em entrevista coletiva concedida na tarde desta sexta-feira para informar sobre o indiciamento.

“A criança tinha pavor e pânico ao ver o carro de Jairinho. A figura dele trazia lembranças das agressões. Ela ficava segurando na perna da avó para não ir ao encontro do doutor Jairinho. Quando identificaram a ânsia de vômito e o pânico da criança, ela foi afastada do convívio (com ele). A criança foi praticamente criada pela avó por questões familiares", contou o delegado Adriano Marcelo Firmo França, titular da DCAV, que também participou da entrevista coletiva nesta sexta-feira.

“Por medo, a mãe da criança acabou não denunciando. Com o caso do Henry, ela criou coragem e acabou denunciando. Esse caso não tem nada a ver com o caso Henry, mas surgiu no bojo da investigação e serve para corroborar o perfil de violência do doutor Jairinho contra menores filhos das pessoas com quem ele têm relacionamento amoroso. Isso ficou comprovado na investigação que foi concluída e na investigação que está em andamento”, completou o delegado Felipe Curi. A mãe da criança é considerada pela polícia vítima de violência doméstica e não será indiciada por não ter denunciado as agressões dele à filha.

Ao ser preso (pela investigação referente a Henry), Jairinho prestou depoimento ao delegado França e negou as acusações. Disse que mantinha com a criança uma relação “amistosa”, sem “grau de intimidade”, e negou ter saído sozinho com ela ou a levado a qualquer lugar que tivesse piscina. Também contestou as agressões. Mas a investigação concluiu que ele mentiu. “Toda a versão apresentada por doutor Jairinho foi derrubada pelas provas documentais e pelo depoimento", disse França durante a entrevista coletiva desta sexta-feira. "Em determinados momentos ele (Jairinho) diz não estar com determinadas crianças em determinados locais. Porém, fotos mostram o contrário", afirmou o delegado.

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