SAMUEL PICAS / MNHN
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“É como a destruição do Museu de Berlim na 2ª Guerra"

Biólogo e pesquisador, dirigente diz que perdas causadas pelo incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro são irreparáveis para a humanidade; falta de investimento mínimo em segurança é erro grave, acusa

Entrevista com

Bruno David, presidente do Museu Nacional de História Natural de Paris

Andrei Netto, CORRESPONDENTE

08 Setembro 2018 | 03h00

PARIS - Como o Rio de Janeiro, Paris tem um Museu Nacional, e ele também é dedicado à história natural. A dimensão das duas instituições diferia em número de itens – 70 mil no caso francês, 20 mil no brasileiro –, mas de acordo com o próprio presidente do Museu Nacional de História Natural de Paris, Bruno David, ambos pertenciam ao mesmo clube dos grandes museus do mundo. A diferença, hoje, é que o brasileiro não existe mais.

Biólogo pesquisador, amante das ciências, David diz sentir a perda do acervo carioca como um brasileiro. Revoltado, o presidente acusa a falta de investimentos como determinante para que a probabilidade de que uma tragédia viesse a acontecer.  

Segundo David, por melhor que seja o sistema de segurança implantado, um museu jamais estará ao abrigo da destruição. "Nenhum sistema é perfeito, e logo jamais estamos completamente protegidos. Mas podemos melhorar o sistema de forma a reduzir o risco até o menor nível possível – ainda que jamais seja zero”, pondera. 

No Museu Nacional de História Natural de Paris, diz David, os prédios são separados, o que faz com que uma catástrofe global seja impossível, a não ser que Paris seja destruída. Mas uma catástrofe que atinja um de nossos prédios seria possível, e por isso cabe às autoridades, diz ele, reduzir o risco ao mínimo. "O prédio menos seguro, a Galeria de Paleontologia, tem sistemas de segurança melhores do que os que existiam no Brasil. Temos câmeras de vigilância, detectores de fumaça, um centro de segurança com agentes 24 horas por dia”, explica o dirigente. "Nada disso torna um incêndio um cenário impossível. Mas é uma questão de probabilidade.”

A seguir, a síntese da entrevista concedida ao Estado

O senhor disse considerar o valor do Museu Nacional de Rio "infinito" e "inestimável". Qual foi sua reação ao tomar conhecimento do incêndio?

Soube pela imprensa que o museu havia incendiado e reagi com estupefação. Não era um museu que eu conhecesse. Eu conheço o Brasil, onde fui como pesquisador a Curitiba, Rio, nas ilhas ao largo do Rio, em várias viagens.

Não é sintomático da baixa visibilidade do Museu Nacional que o senhor não o tenha visitado?

Não, simplesmente porque eu não posso visitar tudo o que quero. Mas era um grande museu. Com 20 mil itens, isso o tornava um dos maiores museus do mundo. Não sei em que posição em um ranking, mas a título de comparação nós temos 70 mil itens, três vezes e meia mais. Somos maiores, mas somos museus da mesma ordem de grandeza. Além disso, era um dos grandes museus da América Latina. Conheço o de Buenos Aires e o de Santiago e posso afirmar. Para mim, esse incêndio é uma tragédia, porque seu patrimônio era inestimável e foi irremediavelmente perdido.

Por quê?

As pessoas não sabem o quanto, na história natural, a perda de um acervo é inestimável e irreparável. Podemos imaginar que uma coleção de aves, ou de plantas, poderia ser substituível. Custa caro, mas poderia. Na verdade, não é. As peças recolhidas e que faziam parte do acervo do Museu Nacional datavam de 100 anos, 150 anos, já que o museu abriu em 1818. Essas espécies, na sua química, na sua bioquímica, traziam informações sobre o meio ambiente da época, como a poluição, por exemplo. Esse ambiente muito provavelmente mudou. Daqui para a frente, não seremos mais capazes de produzir análises sobre essas espécies, porque foram destruídas. Não temos mais a profundidade histórica, ainda que substituamos os exemplares.

Na Unesco, Ieng Srong, chefe da Seção de Patrimônio Mobiliário e de Museus da organização, disse considerar a perda a pior desde os estragos produzidos pela guerra da Síria à cidade histórica de Palmira. Qual sua avaliação?

Faço a mesma análise. Mas para mim a destruição do Museu Nacional me evoca a destruição de Berlim e do Museu de Berlim durante a 2ª Guerra Mundial. Em Berlim as circunstâncias foram radicalmente diferentes, mas em termos de perda podemos comparar. Sou muito sensível à destruição de Berlim porque trabalhei como pesquisador biológico sobre certos tipos que estavam no Museu de Berlim e foram destruídos em 1945. Logo essas referências, referências universais de algumas espécies, desapareceram. Não estou dizendo que a ofensiva contra Berlim não foi justificada, mas as perdas foram enormes. No caso do Rio, foi uma estupidez. É isso que me deixa indignado, porque é algo que poderia ter sido evitado. Com um mínimo de investimento do governo brasileiro, podemos imaginar que essas tragédia não teria acontecido.

O senhor considera a perda do crânio de Luzia como um exemplo maior do irreparável no incêndio do Museu do Rio.

Sim, porque esse era o mais antigo homo sapiens jamais encontrado na América do Sul. Eu tento me colocar na pele de um brasileiro. São peças emblemáticas da história de um território, que contam o que aconteceu com a espécie, que conta a chegada dos Homo sapiens na América do Sul. Esse era o traço da colonização do território pelo Homem, um traço inestimável que desapareceu. Não é simples assim encontrar algo desse nível, em um país tropical úmido, em que os restos fáceis são destruídos com facilidade. Para mim, isso é uma tragédia. Vocês tinham ainda um dinossauro excepcional, fósseis de peixes, que são mais fáceis de encontrar, mas que vão representar um custo e uma energia enorme a serem gastas. 

O senhor também chama atenção para os arquivos, correspondências, documentos que não foram digitalizados, em um museu que estava mal-tratado. 

Eu imagino, e considero quase certo, que documentos desse tipo tenham sido perdidos. O século 19 foi muito rico em correspondências entre as Américas e a Europa. Todo mundo se correspondia. Cientistas do mundo inteiro trocavam cartas, que era o meio de comunicação da época, a tal ponto que o correio circulava mais rapidamente do que hoje entre alguns locais, como entre Londres e São Petersburgo. As pessoas também arquivavam suas correspondências, e os museus também. Se esses arquivos não foram digitalizados, foram perdidos no Museu Nacional. É a história da ciência que se perdeu. 

A destruição de um museu toca toda comunidade, porque a perda de memória gera um impacto social, certo? É isso que explica a revolta dos brasileiros nesse momento?

É absolutamente isso. Eu estou muito revoltado pelos brasileiros, porque sei o tamanho do impacto cultural. É uma parte de sua memória que foi apagada. É como se sua casa pegasse fogo, e a história de sua família, em fotos, seja perdida. É um pouco isso, mas na escala de um país. É claro que uma perda desse porte gera tristeza muito além de seu custo econômico. O prédio pode ser reconstruído, mas seu conteúdo não será reconstruído como era.

O senhor mencionou a questão do investimento, ou da falta de investimento no museu, como origem da tragédia.

Eu não sou brasileiro, e não conheço as circunstâncias exatas. Mas busquei informações e sei que os cortes orçamentários geraram uma tensão no financiamento do museu, que estava sob alta pressão. Mesmo os meios elementares de segurança do local não foram garantidos. Quando chegamos a esse ponto, não estamos ao abrigo de uma catástrofe. Só resta cruzar os dedos para evitar que aconteça. Por isso o que aconteceu é grave.  

A seu ver, o nível de investimento em cultura por parte de um país tem relação com a apreciação que a sociedade faz da cultura?

Completamente. A maneira como uma sociedade mergulha no seu passado, se interessa e aceita suas raízes, traduz-se pelos investimentos em cultura em geral. Isso depende das sociedades, do que consideramos cultura, se incluímos a história natural nesse critério – a meu ver, sim. Faz parte do patrimônio de um território. Para mim, o Museu Nacional de História Natural de Paris é tão importante quanto o Louvre, em termos de patrimônio e de arquivo histórico.

A destruição do Museu Nacional suscitou uma discussão no Brasil a respeito da propriedade pública ou privada dos museus. Alguns dizem que essa tragédia aconteceu porque o poder público não é um bom gestor de cultura. Qual é sua análise?

Meu parecer de cidadão é: a cultura tem de ser um bem nacional. E, por consequência, não se pode confiá-lo a proprietários privados. Podemos buscar recursos com mecenas, o que não tem nada a ver. Mas a direção tem de ser pública, mesmo que haja recursos privados. Eu busco recursos privados para o Museu de História Natural, mas não é essa a questão. A questão é que o comando precisa ser público, porque se trata de bens públicos. Seu acervo pertence à população, e não podemos ceder isso ao poder privado. Não é aceitável, porque são as raízes de uma população. Se o poder público não consegue se ocupar de um museu, talvez seja o caso de passá-lo ao privado. Mas não deveria ser assim, porque é importante, porque nossa história e nossas raízes pertencem a todos nós. 

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