FABIO MOTTA/ESTADAO
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É impossível cobrir tudo o tempo todo, diz ministro da Justiça 

Torquato Jardim e o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Sérgio Etchegoyen, defenderam na ação das Forças Armadas em apoio à segurança pública

Constança Rezende e Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

01 Agosto 2017 | 15h02
Atualizado 01 Agosto 2017 | 23h53

RIO - O ministro da Justiça, Torquato Jardim, e o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Sérgio Etchegoyen, defenderam nesta terça-feira, 1º, a ação das Forças Armadas em apoio à segurança pública em curso no Rio. Jardim negou que os militares - que têm deixado as ruas durante a madrugada - tenham falhado em dois roubos de carga ocorridos na madrugada de segunda-feira. Já Etchegoyen afirmou que está em curso um “novo modelo de operação" e declarou que não é papel das instituições militares ocuparem o Estado. A ação começou na última sexta-feira.

“É impossível cobrir 100% tudo o tempo todo”, disse Jardim. "Podemos pensar (na possibilidade de as tropas atuarem durante a madrugada), mas há sempre uma relação de custo e benefício a ser considerada". Ele afirmou que, em outra operação, em estradas de acesso ao Estado, nos 23 dias anteriores, a polícia apreendeu 36 toneladas de maconha, 270 quilos de cocaína, 32 quilos de crack e 76 armas de fogo, incluindo fuzis e pistolas. Também foram recuperados 163 veículos recuperados, e 1.572 pessoas foram presas.

Etchegoyen disse que não quer “a cidade do Rio militarmente ocupada”. “Temos a consciência de que a permanência das Forças Armadas prolongada em comunidades não produz os efeitos que desejamos. Propõe-se um torniquete, controla-se o tráfico, a criminalidade tira férias e, no momento em que as Forças Armadas saem, as circunstâncias permanecem”, disse. Ele reafirmou as declarações do ministro da Defesa, Raul Jungmann, de que o emprego das Forças Armadas no Rio “será pontual, curto e buscando objetivos bem claros”.

Dúvidas. A estratégia das Forças Armadas na Operação Rio Quer Segurança e Paz, porém, ainda não está clara para especialistas em segurança pública ouvidos pelo Estado.

“É difícil emitir uma opinião porque ainda não sabemos os próximos passos. As ações do fim de semana foram equivocadas, não precisa ter tanque de guerra no Largo do Machado (zona sul), como ocorreu domingo. Mas vamos ver o que estão preparando desta vez”, afirmou a socióloga Julita Lemgruber, coordenadora do Centro de Estudos de Cidadania da Universidade Cândido Mendes.

A pesquisadora  criticou, porém, a primeira etapa da operação militar, definida por Jungmann como um “reconhecimento” das áreas onde as tropas terão que atuar. “A região do Estado com os piores índices de violência é a Baixada Fluminense, e no entanto encheram de soldados na zona sul do Rio. Isso é apenas para agradar à classe média, não para resolver os problemas de violência no Estado. E quanto custou essa ação de reconhecimento?”

Paulo Storani, ex-integrante do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM do Rio e mestre em antropologia social, disse que a presença das tropas nas ruas atende a uma expectativa da população. Não resolve, porém, o problema. “Se efetivo policial resolvesse o problema, era só criar um Estado policial: contrataria mais 100 mil homens, colocaria um policial em cada esquina e não haveria mais violência. Mas o problema é complexo e não será resolvido assim, não basta ter agentes na rua”, pondera.

Para Storani, a divisão das equipes para atuar nas ruas e em ações pontuais é uma alternativa adequada. “Estar na rua é importante para a população saber que existe uma força trabalhando, tentando diminuir a oportunidade de cometimento de delitos. Ter parte desse efetivo agindo de forma pontual, por exemplo no combate ao roubo de cargas, baseado na inteligência policial, é uma boa escolha”, conclui.

O sociólogo Ignacio Cano, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), disse que a presença das tropas nas ruas aumenta a sensação de segurança. Não resolve, no entanto, o problema e provoca a concentração da criminalidade em áreas não vigiadas, destacou. Ele lembrou que a participação das Forças Armadas em operações pontuais na cidade não faz parte das atribuições para as quais as tropas foram treinadas.

“Se eles vão fazer trabalhos de prisão, acho muito arriscado e acho que o Exército não tem preparo nem experiência nesse tipo de ação. Se eles fizerem isso, entramos numa nova fase de incertezas. Além do confronto, há também o risco de destruírem provas”, afirmou Cano.

Outro lado. O porta-voz do Comando Militar do Leste (CML), coronel Roberto Itamar, descartou o risco de que as Forças Armadas desempenhem funções de outras instituições. Afirmando falar em seu nome (e não em nome do CML), ele disse que o Estado-Maior conjunto, criado por decreto pelo presidente Michel Temer (PMDB), prevê uma união de forças. Nela, cada instituição cumpre suas próprias atribuições.

“Os militares não vão desempenhar funções da Polícia Civil nem da Polícia Militar ou da Polícia Rodoviária Federal ou de qualquer outra instituição. Vão fazer seu trabalho, e o que ocorre é uma sinergia para que, sob uma coordenação conjunta, os resultados sejam otimizados”, afirmou.

O militar disse ainda que os militares são atiradores muito treinados e disciplinados, que “só atiram no que veem”. Além disso, segundo ele, a maioria dos agentes tem experiência em outras ações desse tipo no Rio de Janeiro e no Haiti. Isso minimizaria riscos de tiroteios.

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