Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Em 1 ano, 31 das 38 UPPs registraram confronto

Dessas, 7 têm menos de 5 mil habitantes; violência em territórios menores do Rio contraria justificativas da Secretaria de Segurança 

Carina Bacelar, Especial para O Estado

27 de fevereiro de 2015 | 03h00

RIO - Das 38 Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) já instaladas no Rio, pelo menos 31 registraram, entre janeiro de 2014 e fevereiro deste ano, conflitos entre criminosos e policiais e ataques a sedes do programa, iniciado em 2008. Entre as favelas em que houve confrontos, 13 têm menos de 10 mil habitantes e, dessas, 7 têm menos de 5 mil. 

A violência em territórios menores contraria o discurso da Secretaria de Segurança, que costuma divulgar que os problemas relacionados às UPPs acontecem em favelas mais populosas. Em março do ano passado, o secretário José Mariano Beltrame afirmara que os problemas eram pontuais “em uma ou duas UPPs, por questões topográficas, urbanísticas e com a tirania do tráfico”. “Temos (problemas) nas mais populosas”, disse, citando a Rocinha (São Conrado, zona sul) e o complexo do Alemão (zona norte). 


Para o porta-voz da PM, coronel Frederico Caldas, não há, a curto prazo, forma de erradicar a violência nas comunidades carentes da região metropolitana. “Não é em um passe de mágica que a polícia chega e resolve tudo. De um modo geral, as UPPs têm em comum o fato de serem localizadas em comunidades com históricos muito difíceis.” De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010, vivem na Rocinha 71.080 pessoas e no Alemão, 60.555. 

As estatísticas do Instituto de Segurança Pública (ISP), órgão da Secretaria de Segurança, estão defasadas. Os últimos dados apresentados são do primeiro semestre de 2014, quando quatro policiais de UPPs foram mortos em serviço. Dois assassinatos aconteceram no Parque Proletário e um na Vila Cruzeiro, comunidades do complexo da Penha, vizinho do Alemão. O outro crime foi na Nova Brasília, uma das favelas do Alemão. 

Comunidades bem menos populosas também tiveram episódios de mortes de PMs. Na Mangueira (zona norte), em outubro passado, o soldado Thiago Rosa Coelho da Silva, de 30 anos, morreu ao ser baleado por criminosos. A Mangueira tem 14.589 habitantes, segundo o IBGE. 

São Carlos. Ainda menor do que a Mangueira, o morro de São Carlos (Estácio, região central), com 9.169 habitantes, teve um policial morto em 6 de janeiro deste ano. Com 3.345 moradores, o Salgueiro (Tijuca, zona norte) registrou tiroteio em que um PM foi ferido e um suspeito, morto. Em outubro, um homem de 22 anos foi ferido por bala perdida em confronto entre policiais e bandidos. Das favelas com UPP, o Salgueiro só tem mais moradores do que o Cerro-Corá (Santa Teresa, zona sul), com 2.805 moradores. 

De acordo com o antropólogo Edilson Márcio Almeida da Silva, do Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos da Universidade Federal Fluminense (UFF), os confrontos iniciais em grandes comunidades inspiraram a resistência atual em UPPs menores. “Depois que isso começa em áreas maiores, as menores se inspiram nesse tipo de modelo.”

Segundo o especialista, a expansão da política de pacificação não levou em conta particularidades e problemas de cada favela. Ele diz que comunidades que não registraram confrontos, como Dona Marta e Vidigal, na zona sul, tiveram ocupação mais estudada. 

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