Wilton Junior|Estadão
Wilton Junior|Estadão

Em 19 anos, projeto de teatro já atendeu 15 mil detentos no Rio

Presos participam das aulas com autorização da direção da cadeia; comportamento também determina adesão

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2016 | 03h00

RIO - As aulas que iniciaram Edson Sodré Teixeira, de 54 anos, no mundo teatral integram o projeto Teatro na Prisão, criado em junho de 1997 pela professora Natália Fishe, da Unirio. “Começou como oficina oferecida pela pós-graduação. A ideia era visitar presídios e oferecer aulas de teatro aos detentos. Escolhemos o Lemos de Brito porque era mais perto. Mas o então diretor disse que autorizaria se fosse um projeto contínuo, que não queria projeto temporário. Eram uns 15 alunos. A maioria decidiu continuar.”

Ao longo de 19 anos, o projeto já atendeu cerca de 15 mil detentos, estima ela. “Atendemos a quatro presídios: Evaristo de Moraes, com cerca de 40 homens; Esmeraldino Bandeira, com uns 20; Talavera Bruce, com pouco menos de 40 mulheres; e Unidade Materno-Infantil, ligada à Talavera, com umas 15 mulheres.”

Os presos interessados se inscrevem para as aulas, mas só participam se autorizados pela direção da cadeia. “O número de alunos em cada aula depende do comportamento do preso e até da estrutura do presídio. Quando há menos agentes penitenciários em serviço fica mais difícil liberar os presos para a aula. Eles aprendem a encenar e vão ensaiando a peça até apresentá-la no presídio.”

Em 2014, a professora ampliou o projeto e passou a reunir, na Unirio, na Urca, zona sul, ex-detentos, presos do semiaberto e parentes para atividades culturais e debates. “Ainda falta estrutura, é preciso bancar o transporte das pessoas, ainda estamos engatinhando.”

Professora teve pai preso e se interessou por rotina

Em seu projeto de teatro para presos, a Unirio firmou parceria com a Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, que mantém programa semelhante. Professora de teatro nesta instituição, Ashley Lucas, de 36 anos, passou a se interessar pela rotina em presídios porque seu pai permaneceu preso ao longo de 20 anos. Da experiência resultou a peça O visitante atrás das grades, encenada pela primeira vez no Brasil na última terça-feira na Penitenciária Evaristo de Moraes, em São Cristóvão (zona norte).

“Quando o pedido de liberdade provisória dele (do pai) foi negado pela terceira vez, passei a querer saber como era a rotina das famílias dos outros presos, como os parentes reagiam a essa situação”, diz. Ela começou a procurar familiares de detentos e fez centenas de entrevistas, além de ter trocado cartas com mais de 400 presidiários.

Os perfis mais interessantes foram reunidos nos 13 personagens do monólogo – em alguns estão reunidas características de mais de um preso. O espetáculo se estende por uma hora e 15 minutos e é sempre interpretado pela própria Ashley, que já conheceu presídios da Europa e do Brasil, além dos americanos.

“Não dá para dizer que um seja pior que o outro. Tem coisas que são melhores nos Estados Unidos, em outros aspectos os do Brasil são melhores. Aqui tem plantas e banho de sol no pátio, por exemplo. Mas estar na prisão é parecido em qualquer lugar, é muito ruim”, conclui.

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