CARLOS CHICARINO/ ESTADÃO CONTEÚDO
CARLOS CHICARINO/ ESTADÃO CONTEÚDO

Em áudio, PMs do Rio mostram surpresa com ação de 100 traficantes

Conversa via rádio obtida pelo 'Estado' avisava do deslocamento de criminosos em Santa Teresa; tiroteios na Coroa deixaram 6 mortos

Carina Bacelar, O Estado de S. Paulo

11 Maio 2015 | 11h01

Atualizada às 21h32

RIO - O confronto entre traficantes dos Morros da Coroa, Fallet, Fogueteiro e Turano, no centro do Rio, na sexta-feira, surpreendeu a Polícia Militar (PM) e deixou atônitos os agentes de segurança encarregados de reprimir os criminosos. Desde 2011, as favelas têm Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). Gravação obtida pelo Estado registra o momento em que PMs recebem pelo rádio a notícia da aproximação dos traficantes na região. 

“Cem indivíduos fortemente armados no Morro de São Carlos partindo para a comunidade da Coroa. Segundo histórico, mais de cem elementos”, diz um agente da central operacional da PM, repetindo o efetivo de criminosos. Na patrulha, os PMs hesitam sobre o que fazer. “Que viatura que vai?”, questiona um deles. 

Ouça o áudio obtido pelo 'Estado':

Naquela noite, a troca de tiros deixou quatro mortos e cinco feridos, entre eles uma grávida de cinco meses, que segue internada no Hospital Souza Aguiar, no centro. No domingo, mais dois homens morreram durante tiroteio entre traficantes e PMs do Comando de Operações Especiais (COE), que ocupou as comunidades sem data para deixá-las. 

Segundo a coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec) da Universidade Candido Mendes, a socióloga Silvia Ramos, especialista em segurança, a retomada de enfrentamentos entre quadrilhas inimigas em Santa Teresa, Rio Comprido e Catumbi, periféricos ao centro, não terá reflexo nas favelas na região da Tijuca e do Andaraí, na zona norte do Rio. 

A estratégia da Secretaria Estadual de Segurança para grandes eventos na área - Copa do Mundo, estada do papa Francisco no Rio e Olimpíada - incluiu a montagem de uma espécie de cinturão de UPPs. Para Silvia, a violência na Coroa e no Fallet “tem potencial para afetar a reputação das UPPs”, embora não considere que haja “desestabilização de outras unidades e da própria região”. 

A convocação de homens do COE após os confrontos na área e a preservação de policiais das UPPs demonstra uma mudança de paradigmas positiva, afirmou Silvia. “É uma reorientação dos erros que ocorreram nos últimos anos.” 

O sociólogo Marcelo Burgos, da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), faz outra avaliação dos confrontos. Para ele, houve uma invasão do tráfico “à moda antiga”, que pode inspirar a resistência do tráfico em outras comunidades. “Não foi um raio no céu azul. Olhando como um todo, o que aconteceu naquela região não é um fato isolado. E um fato após o outro vai criando outra narrativa”, afirmou. 

Estratégia. Ex-comandante da PM do Rio e um dos coordenadores da ONG Viva Rio, o coronel Ubiratan Ângelo fala que a região envolvida no conflito é estratégica para a distribuição de drogas no centro, Tijuca e zona sul. “Macula a imagem da UPP, claro. Porque a imagem da UPP é de que não tem confronto. Mas confirma a percepção do comando da PM, de mudança do cenário.” 

Procurada pelo Estado, a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) negou entrevista com representantes do comando das UPPs. 

Investigação. A hipótese de que a invasão era iminente - e conhecida por traficantes - ganha respaldo com base no áudio, cuja autoria, investigada pela Polícia Civil, é atribuída ao traficante Celso Pinheiro Pimenta, o Playboy, chefe do tráfico no Morro da Pedreira, em Costa Barros, zona norte. Ele integra a facção que perdeu território na Coroa, a Amigos dos Amigos (ADA). 

Na gravação, o homem que seria Playboy pede a outros traficantes, por mensagem, reforço de munição e armamentos para a quadrilha da Coroa. “A hora é essa para fortalecer os amigos da Coroa(...). Uma pistola, um oitão (revólver calibre 38), uma bala, uma granada, quem puder fortalecer, vamos fortalecer.”

Ouça o áudio do suposto traficante:

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