Leo Correa/AP
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Assessora disse não ter visto assassinos; polícia investiga 2º carro

Sobrevivente afirmou que funcionária da vereadora Marielle Franco foi abordada em tom de ameaça dias antes

Constança Rezende, Roberta Jansen e Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

16 Março 2018 | 21h20
Atualizado 16 Março 2018 | 22h03

RIO - A assessora de Marielle Franco afirmou à Polícia Civil não ter percebido que o veículo em que estavam era seguido e não ter visto nenhum carro nem moto perto. O conteúdo do depoimento foi divulgado nesta sexta-feira, 16, pela TV Globo.

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Cerca de dez dias antes do crime, segundo a emissora, uma funcionária de Marielle foi abordada de forma ameaçadora em um ponto de ônibus por um desconhecido. Em tom de ameaça, ele perguntou se a funcionária trabalhava com a vereadora. A mulher, que trabalhava administrativamente, estranhou. A assessora que estava com Marielle na hora do crime, porém, disse que a vereadora nunca havia relatado qualquer ameaça.

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Segundo o depoimento, a assessora disse que Marielle costumava ficar no banco da frente, ao lado do motorista, mas naquela noite preferiu ir atrás para falar com a funcionária. Queriam escolher fotos do evento que haviam acabado de ir. 

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Assim que o veículo entrou na Avenida João Paulo I, a assessora, que disse estar distraída ao celular, ouviu os tiros, que pareciam vir de trás, na diagonal. Segundos antes, a vereadora havia dito “ué?”, em tom de dúvida. No momento dos disparos, o motorista disse “ai”. A sobrevivente se abaixou para tentar se proteger e Marielle, que usava cinto de segurança, tombou sobre ela. O carro, que trafegava devagar, seguiu desgovernado até que a própria assessora conseguiu se esticar e acionar o freio de mão. 

Na noite desta sexta, a assessora publicou nas redes sociais uma homenagem à vereadora: “Estou viva. Mas a alma oca. A carne, ainda trêmula, não suporta a dor que serpenteia por dentro, num looping sem fim. Minha amiga, na tentativa de calarem a sua voz, a ampliaram ensurdecedoramente, em milhares de bocas. Para sempre. #MarielleVive”, escreveu. Ela está escondida e sob proteção. O PSOL teme por sua segurança.

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Nós estamos sobrevivendo um dia de cada vez.
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Anielle Franco, irmã de Marielle Franco, professora de 33 anos

Família

Os parentes de Marielle poderão ter segurança profissional pelo menos até o fim da investigação. “A assessoria dela (Marielle) está vendo isso”, disse ao Estado nesta sexta a irmã da vereadora, a professora de Inglês Anielle, de 33 anos. “Acredito que vamos ter, mas não fomos ainda comunicadas oficialmente.” Mas ela contou que a família não está se sentindo ameaçada. “Porque não temos resposta de nada ainda; até para saber se devemos ou não ficar com medo.”

Polícia investiga participação de 2º carro

Policiais da Divisão de Homicídios do Rio descobriram que ocupantes de um segundo carro possivelmente participaram da operação de assassinato da vereadora. Câmeras, nas imediações do local onde ela participou de evento antes de ser morta, na Lapa, registraram a presença de suspeitos, cerca de duas horas antes da chegada de Marielle. Aparentemente faziam o que a polícia chama de “abajur” - ação de inteligência, para coleta de informações.

Até esta sexta, sabia-se só que ocupantes de um carro prata eram os responsáveis pelos tiros que abateram a vereadora e seu motorista. Agora, o cenário que vai sendo reconstituído pode incluir um segundo veículo. 

Nele, estavam homens que, suspeitam investigadores, eram responsáveis por passar informações prévias ao atirador, que estava no outro carro, no banco traseiro, do lado esquerdo. O modo como a operação pode ter sido montada, com um grupo de vigilância e outro de execução, indica que o crime foi ação de profissionais.

As imagens mostram dois homens, em um carro estacionado perto da Casa das Pretas, na Rua dos Inválidos. A existência de câmeras de segurança na via pode ter contribuído para que Marielle não fosse morta ao chegar ou ao sair do prédio. 

Os suspeitos esperaram o fim do evento. Quando ela saiu, eles já estavam prontos para seguir o carro da vítima. Imagens obtidas pela TV Globo mostram quando o veículo com os suspeitos saiu, logo após a partida do automóvel de Marielle.

Uma das informações críticas obtidas pelos criminosos foi a posição em que ela se sentou no veículo, que tinha vidros cobertos por película escura, o que dificultaria saber sua posição. Como observaram o embarque, eles viram quando ela se sentou no banco traseiro, à direita, com a assessora ao lado.

Na Avenida João Paulo I, o primeiro carro emparelhou com o veículo de Marielle. Os tiros ficaram concentrados no local onde ela estava - indício da ação de atirador experiente, que conseguiu controlar os “coices” da arma e manter a mira. 

Um carro que teria sido usado na ação tinha placa clonada. Nesta sexta, detetives localizaram em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, o dono do automóvel verdadeiro. Constataram que não tem ligação com o crime. A polícia ainda tenta encontrar o veículo clonado. Investigadores também percorreram as ruas dos Inválidos e do Senado, por onde o carro de Marielle foi seguido, para recolher imagens de câmeras de segurança.

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