Em meio a crise na saúde, transferência demora e bebê morre

Menino de três meses necessitava de uma internação em UTI pediátrica, mas vaga demorou a aparecer

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2016 | 16h55

RIO - Um bebê de três meses que estava internado no Hospital da Mulher Heloneida Studart, em São João do Meriti, na Baixada Fluminense, morreu na madrugada deste domingo, 24, sem conseguir transferência para uma unidade especializada. Pedro Carolino Matoso Reis nasceu com problemas cardíacos e havia sido operado, mas necessitava de uma internação em UTI pediátrica. A vaga demorou a aparecer.

Segundo a advogada Vanessa Palomanes, que deu assistência jurídica à família, a Secretaria de Estado de Saúde demorou a encontrar um leito disponível para Pedro. A vaga só surgiu na sexta-feira, 22, quando o estado de saúde gravíssimo do bebê impossibilitava a remoção. Ele havia contraído pneumonia e tivera duas paradas cardiorrespiratórias na quinta-feira, 21.

“O aparelho que ajudava a respirar começou a dar problemas, mas ninguém deu bola, disseram que era assim mesmo. Na segunda (18), o quadro dele começou a piorar, e os médicos informaram que o caso dele era para UTI pediátrica. Colocaram o nome dele na central de vagas na terça, mas no mesmo dia o Estado tirou porque ele não teria perfil para UTI pediátrica”, contou o pai Sérgio Carolino.

No Hospital da Mulher, Pedro estava internado em uma UTI neonatal, único tipo disponível no local. Esse tipo de unidade é destinada a bebês com até 28 dias de vida, segundo regulamento técnico da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib).

"Temos documento do hospital dizendo que a UTI neonatal não tinha todos os recursos necessários, e o Estado não fez nada para que ele fosse removido", disse Vanessa. “Ficamos num limbo, porque ele não podia ficar na UTI neonatal e não tinha perfil para a UTI pediátrica”, contestou o pai.

Em nota, a direção do hospital afirmou que Pedro vinha recebendo “todo o atendimento e assistência necessários ao seu quadro clínico na unidade”. “A UTI neonatal da unidade dispõe de toda a estrutura adequada, incluindo equipamentos, materiais e insumos, além de profissionais capacitados para este tipo de atendimento”, disse.

“Cabe esclarecer que não é verdadeira a informação de que a UTI neonatal só tenha capacidade para atendimento de crianças de até 28 dias. Faz parte da rotina das UTI neonatais, de forma geral, a permanência de recém-nascidos por mais de dois meses, como foi o caso de Pedro, nascido com patologia complexa e grave, que permanecem internados até o final do tratamento. Desta forma, vale ainda esclarecer a definição do leito mais adequado para qualquer tratamento varia de acordo com o perfil de cada paciente, não sendo definida, necessariamente, somente por idade, tamanho ou peso”, acrescentou a direção do hospital. A unidade informou ainda que disponibilizou atendimento psicológico para a família e que permanece à disposição para qualquer esclarecimento.

A Secretaria estadual de Saúde informou que a direção do HMHS dispunha de todas as condições adequadas para o tratamento de Pedro, não sendo possível a transferência do paciente devido à gravidade do quadro. O órgão disse ainda que enviou um especialista em terapia intensiva pediátrica à unidade, que constatou a “efetiva impossibilidade de transferência do paciente, por motivos clínicos, para qualquer outra unidade de saúde, mesmo que fosse a vontade da família”.

A causa da morte de Pedro foi apontada como choque refratário (não resposta à medicação), em consequência de sepse (conjunto de sintomas causado por infecção) e cardiopatia congênita complexa.

Cirurgia. Pedro nasceu em 23 de outubro de 2015. Na sua primeira semana de vida, os médicos diagnosticaram displasia broncopulmonar (quando o coração precisa de mais pressão para bombear o sangue) e o encaminharam para cirurgia em hospital especializado. A família precisou recorrer à Justiça para garantir a operação.

Após a concessão de liminar, Pedro foi transferido para o Instituto Nacional de Cardiologia (INC) em Laranjeiras, zona sul do Rio, e operado em 12 de novembro. Em 8 de dezembro, segundo a família, o bebê foi devolvido ao Hospital da Mulher sem o conhecimento dos pais.

“Quando chegamos lá, já estava tudo pronto para ser transferido. Em nenhum momento autorizamos, não assinamos nada. Falaram que não precisava porque era (remoção para) hospital de origem”, contou Carolino. Segundo ele, a família não acompanhou a transferência e, no processo, as roupas do bebê foram extraviadas.

"A decisão da Justiça previa que (o INC) cuidasse dele até a recuperação. Mas isso não aconteceu", relatou Vanessa. Procurado, o Instituto Nacional de Cardiologia (INC) não se manifestou até a publicação desta reportagem.

O corpo de Pedro foi sepultado às 15h deste domingo, 24, no Cemitério Jardim da Saudade, em Mesquita. “Nossa vida acabou. Todos os nossos planos incluíam ele”, lamentou o pai.

A rede estadual de saúde no Rio de Janeiro vem sofrendo com falta de recursos para materiais e pagamento de profissionais diante da crise financeira vivida pelo Estado. O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), já recorreu ao governo federal e à prefeitura do Rio para amenizar a situação, que permanece grave.

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