Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

Em noite de protestos, Mangueira arrebata Sapucaí no 1º dia de desfiles

A tradicional escola de samba, conhecida pelas cores verde e rosa, se destacou por criticar abertamente o prefeito do Rio, Marcelo Crivella

Roberta Pennafort e Fábio Grellet, Rio de Janeiro

12 Fevereiro 2018 | 07h23

A Mangueira despontou como a primeira favorita ao título do carnaval carioca de 2018 nesta noite de abertura do Grupo Especial no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. A escola, também conhecida como Verde e Rosa, foi saudada na Apoteose aos gritos de “é campeã” por apresentar um desfile tão belo quanto combativo. A Vila Isabel, que cantou seu “Corra que o futuro vem aí” e trouxe carros com efeitos tecnológicos, e a Mocidade Independente de Padre Miguel, com sua viagem à Índia, foram outros destaques. 

Veja a seguir como foi o desfile de cada escola:

MANGUEIRA

Em defesa da folia carioca - da qual, aos 90 anos, é símbolo - a Mangueira exaltou em seu enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”, as escolas de samba, blocos de rua e criticou abertamente o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), que apareceu numa alegoria na figura de um boneco enforcado, como um Judas, junto aos dizeres, extraídos do samba: "Prefeito, pecado é não brincar o carnaval". Foi uma alusão ao apoio que o mundo do carnaval deu ao então candidato em sua campanha de 2014 e ao corte que ele, eleito, fez posteriormente nas verbas para os desfiles.

O carnavalesco Leandro Vieira escolheu tons pouco usados de verde e rosa, mais suaves, e mesclou listras e florais em carros e em alas que representaram blocos tradicionais, como o Bola Preta, o Cacique de Ramos e o Bafo da onça, além de grupos do novo carnaval de rua do Rio, que trazem outros estilos musicais ao samba. O verso do samba “se faltar fantasia, alegria há de sobrar” não se comprovou: a Verde e Rosa estava bem acabada e muito animada, com componentes cantando com vontade as alfinetadas a Crivella. 

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VILA ISABEL

Campeã em 1988, 2006 e 2013 e décima colocada no desfile de 2017, a Unidos de Vila Isabel foi a terceira escola a se apresentar durante a primeira noite de desfiles das agremiações do grupo de elite do Rio de Janeiro, 12. Apresentando um enredo sobre as grandes invenções da humanidade, a escola teve duas estrelas: o carnavalesco Paulo Barros, que deixou a Portela após ser campeão em 2017  e reestreou na Vila, e o cantor e compositor Martinho da Vila, que está comemorando 80 anos exatamente nesta segunda-feira e desfilou no carro abre-alas da escola.

Os dois foram muito aplaudidos - Martinho no início e Paulo Barros ao final. Como sempre faz, o carnavalesco desfilou depois de toda a escola, comemorando a exibição. Esbanjando luxo, didatismo e alegorias que integravam humanos e equipamentos, a escola se credenciou para voltar no Sábado das Campeãs, quando desfilam as seis melhores - na opinião do júri especializado. O carnavalesco Paulo Barros mais uma vez abusou dos truques tecnológicos nos carros, com alguns bons resultados, como o do rapel na “roda da Vila”. Ao final do desfile, Martinho celebrou: "Nunca me imaginei com 80 anos, mas estou aqui pulando carnaval", disse à TV Globo

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PARAÍSO DO TUIUTI

Alçada ao grupo de elite das escolas de samba do Rio em 2017, após vencer a segunda divisão em 2016, o Paraíso do Tuiuti foi a quarta escola a desfilar na primeira noite de apresentações no Rio de Janeiro, já na madrugada desta segunda-feira, 12. A escola discorreu sobre a escravidão no Brasil e defendeu a ideia de que ela ainda não acabou, apenas mudou de forma.

O carnavalesco Jack Vasconcelos partiu dos navios negreiros do século 16 e chegou ao "cativeiro social" dos dias de hoje, marcado por desigualdades sociais e precarização do trabalho. As últimas alas e o último carro alegórico, bastante aplaudidos, faziam críticas à reforma trabalhista e sugeria o presidente Michel Temer (MDB) como vampiro.

 

GRANDE RIO

Na estreia do carnavalesco Renato Lage, campeão cinco vezes na Sapucaí, a Grande Rio divertiu a avenida com uma homenagem ao centenário do apresentador Chacrinha (celebrado em 2017), recorrendo a seu apelo popular mesmo passadas três décadas de sua morte. Mas um problema no sexto e último carro, que empacou na Avenida Presidente Vargas e não entrou no Sambódromo, derrubou a escola. A passagem da agremiação tricolor terminou com desfilantes em prantos. O tempo foi estourado em cinco minutos, o que lhe trará penalidade.

O carro representava o carnaval de Recife, que Abelardo Barbosa brincou quando jovem. Muito largo por conta das ornamentações, ele não conseguiu passar numa agulha de cerca de 10 metros da via para seguir para a Sapucaí.

 

IMPÉRIO SERRANO

Após oito anos desfilando na segunda divisão do carnaval do Rio, o Império Serrano voltou à elite das escolas de samba cariocas ao abrir a primeira noite de desfiles no sambódromo do Rio de Janeiro. Discorrendo sobre a China, a agremiação tentou compensar a falta de luxo, decorrente da falta de dinheiro, com menções recorrentes à tradição da escola, uma das quatro que dominaram o carnaval do Rio até a segunda metade da década de 1970 - ao lado de Mangueira, Portela e Salgueiro.

Além de cometer erros que criaram buracos entre algumas alas, a Império passou tão rápido que não cumpriu os 65 minutos mínimos de desfile. Encerrou com 63 minutos, o que deve fazê-la perder dois décimos automaticamente - isso será confirmado no início da apuração, na próxima quarta-feira. 

 

SÃO CLEMENTE

A São Clemente provou ser "academicamente popular", como brinca seu melodioso samba, ao lembrar as origens e os 200 anos da Escola Nacional de Belas Artes. O desfile da agremiação, uma das poucas do carnaval do Rio nascida na zona sul da capital fluminense, teve figurinos e carros alegóricos caprichados, com ênfase nas personagens do Rio de Janeiro do século 19 e na vinda da chamada Missão Artística Francesa para cá, em 1816, que levou à fundação do que viria a ser a escola.

 

MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL

Atual campeã do carnaval, após dividir o título de 2017 com a Portela, a Mocidade foi a sétima e última escola a desfilar na primeira noite de exibições das agremiações de elite no sambódromo do Rio de Janeiro. A escola discorreu sobre a Índia e destacou elementos típicos daquele país que chegaram ao Brasil e se tornaram famosas aqui, como frutas e animais. O desfile criado pelo carnavalesco Alexandre Louzada foi didático, mas menos luxuoso e criativo do que Vila Isabel e Mangueira, outras agremiações que desfilaram nesta primeira noite de exibições.

 

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