Entidades criticam construção de teleférico em favelas

Lideranças comunitárias dizem que equipamento em área de conflito colocaria vidas em risco

Pedro Dantas, do Estadão, RIO

16 Julho 2007 | 19h16

As obras orçadas em R$ 495 milhões estão previstas para outubro, mas o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) já provoca polêmica no Complexo do Alemão. O teleférico, símbolo das intervenções que prometem urbanizar o conjunto de favelas, é um dos pontos que coloca em campos opostos o governo estadual e moradores.   "Aqui é uma região de conflito. Como os moradores vão se sentir seguros em um teleférico que pretende unir duas comunidades em confronto?" questiona Alan Brum, do Grupo Sócio Cultural Raízes em Movimento, que atua nas favelas desde 2001. Ele se refere ao projeto de unir com o teleférico o Complexo do Alemão, controlado pela facção criminosa Comando Vermelho e o Morro do Adeus onde a venda de drogas é dominada pelo Terceiro Comando Puro.   Geograficamente, o Morro do Adeus pertence ao Complexo do Alemão, mas está segregado há anos por causa da luta pelo controle das bocas-de-fumo entre as quadrilhas, que ameaçam os moradores que cruzam a fronteira imaginária entre as favelas. O teleférico iria até Bonsucesso e teria como primeira estação o Morro do Adeus.   "Concordo que o Estado não deve se submeter aos limites impostos pelo crime, mas se o governo acha que vai acabar com o tráfico até outubro está no caminho errado. A última operação amedrontou apenas os moradores. Nada mudou", avaliou Brum, se referindo a ação policial do dia 27 de junho em que 19 supostos traficantes foram mortos. Ele defende a adoção de programas sociais e diz que "O Favela-Bairro (programa de urbanização da Prefeitura) já provou que apenas a urbanização não elimina a pobreza".   "Nenhum morador da Grota vai querer ir para Bonsucesso pelo Morro do Adeus para correr risco de vida. Essa idéia foi do governo. A comunidade não está sendo ouvida", lamentou o presidente da Associação de Moradores da Favela da Grota, Wagner Nicácio, o Bororó. Ele diz que tenta contato com Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio (Emop) há dias, mas sem sucesso.   Líderes comunitários e ONGs avaliam que as prioridades são outras. "Precisamos é de postos de saúdes, escolas, frentes de trabalho e centros de lazer e cultura. O teleférico está em último", resumiu Nicácio.   Procurado pelo Estado, o presidente da Emop respondeu por meio de uma nota que "o projeto de intervenções urbanísticas no Complexo do Alemão foi desmembrado em três tópicos: Identificação, Diagnóstico e Plano. A segunda fase - de diagnose - foi amplamente discutida com a comunidade, por mais de ano e meio.

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