Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Erros de construção causaram destruição na Praia da Macumba, diz especialista

Relatório de 2000 da UFRJ já alertava para os riscos e sugeria alterações; Paulo Rosman fala sobre o problema

Entrevista com

Paulo Rosman, especialista em Engenharia Costeira da UFRJ

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2017 | 19h15

RIO - Um dos mais importantes cartões postais do Rio de Janeiro, a Praia da Macumba, no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste, continua afundando. Em menos de um mês, a despeito de repetidos alertas feitos por moradores, quiosques, calçadão e ciclovia foram sendo destruídos pela força das ondas. O problema, no entanto, é antigo. Em 2000, um relatório do Programa de Pós-Graduação e Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Coppe, já alertava para os riscos e sugeria alterações. O especialista em Engenharia Costeira da universidade Paulo Rosman, que participou do diagnóstico de 17 anos atrás, fala sobre o problema.

+++ Ondas levam parte de calçadão de praia no Rio

O que está acontecendo na Praia da Macumba, no Recreio? Por que o calçadão desabou em vários pontos?

O que está acontecendo na Praia da Macumba é o que acontece em várias cidades ao longo do litoral brasileiro: as prefeituras não respeitam a natureza e a urbanização avança sobre a chamada zona dinâmica da praia.

O que é a zona dinâmica da praia?

É a faixa de areia que é destruída quando tem ressaca e, posteriormente, reconstruída quando o mar recua. Também é conhecida como faixa dinâmica, justamente porque tem essa característica.

Mas isso é sabido, não?

Sabido por quem? A prefeitura certamente não sabe por que constrói em cima da faixa dinâmica. A gente sabe, mas os leigos não sabem e fazem bobagem. Desde o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro (de 1988), passou a ser obrigatório respeitar a faixa dinâmica. Mas no Brasil nem sempre as leis são cumpridas.

O grande problema ali na Praia da Macumba, então, é a construção sobre a faixa dinâmica?

Sim, mas com um agravante. Do lado esquerdo, a praia é limitada pelo Canal da Sernambetiba e, do lado direito, pelo Morro do Pontal. Esses dois pontos definem a Praia da Macumba. Esse canal drena água da região de Vargem Grande, que é uma região de baixada. Ali deságuam vários riachos. Se o canal ficar fechado pela areia, ele transborda e inunda tudo. Por isso, é mandatório manter o canal aberto. Durante décadas, toda vez que o canal ficava entupido de areia, jogada pelas ondas, ele era dragado. No entanto, toda essa areia retirada deveria ser devolvida à praia, mas era levada para outros lugares. As pessoas fazem isso por total falta de conhecimento, não por ganância ou burrice. Enfim, o fato é que isso reduziu o estoque de areia da praia aproximando ainda mais o litoral da rua.

O senhor já havia detectado este problema em um estudo de 17 anos atrás, não? O que aconteceu?

Sim. Em 1999, houve um episódio de destruição, mas não tinha ciclovia, eram poucas construções, não chamava tanta atenção. O fato é que nos chamaram e nós diagnosticamos o problema e, em maio de 2000, apresentamos um projeto para resolver o problema: regularizar a embocadura do Canal da Sernambetiba, para manter o fluxo regular, e, do outro lado, colocar um retentor de areia para não haver mais perdas. 

Mas o projeto não foi aceito?

Não. De lá pra cá, as dragagens continuaram. Sempre dizem que a areia foi devolvida para a praia, mas a natureza está dizendo outra coisa. E a natureza sempre tem verdades, não tem versões, ela tem fatos. Em 2005, a prefeitura fez um outro avanço de urbanização em cima da praia. Ou seja, numa praia que já tinha déficit de areia, fizeram calçadão e ciclovia, avançando ainda mais sobre a praia. O resultado é esse aí.

 

Tem solução?

Tem solução, mas custa caro, e a Prefeitura não tem orçamento. Algo deve ser feito emergencialmente para impedir que tudo seja destruído. O calendário está a favor porque a primavera, historicamente, não é um período de grandes ressacas. Mas as medidas têm que ser tomadas com urgência porque em março recomeça.

Que medidas emergenciais seriam essas?

Uma contenção emergencial, feita com pedra, para refletir as ondas. Bom frisar que isso não resolve o problema. Contém as ondas, mas, na verdade, piora as condições da praia, aumenta a taxa de erosão a longo prazo.

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