FABIO MOTTA | ESTADAO CONTEUDO
FABIO MOTTA | ESTADAO CONTEUDO

Escolas do Rio apostam em criatividade e reciclados para driblar crise na Sapucaí

Prefeitura reduziu repasses para cada agremiação de R$ 2 milhões para R$ 1 milhão, patrocínios minguaram e Ministério do Trabalho fechou barracões por um mês; segundo dirigentes, verba menor deve trazer inovação e disputa mais aberta

Roberta Pennafort, Impresso

11 Fevereiro 2018 | 05h00

RIO DE JANEIRO - As escolas de samba do Grupo Especial do carnaval do Rio chegam na noite deste domingo, 11, à Sapucaí como sobreviventes de um ano difícil. Ainda assim, o samba mandou avisar: a crise não vai passar na avenida. As agremiações prometem superar as dificuldades com custos mais baixos e criatividade.

A prefeitura reduziu a verba de cada escola para o desfile de R$ 2 milhões para R$ 1 milhão – e as agremiações ameaçaram cancelar a festa. Os patrocínios minguaram, e o Ministério do Trabalho fechou os barracões por um mês, para adequação a normas de segurança. Foi preciso ainda redobrar o cuidado com carros alegóricos, após acidentes em 2017 que mataram uma radialista e feriram mais de 30 pessoas.

Para produzir alegorias e fantasias, cada escola teve R$ 4 milhões, soma da subvenção municipal e das receitas com ingressos com direitos de transmissão pagos pela TV Globo. É menos da metade do que já receberam em anos de bonança, quando o Estado do Rio e a Petrobrás as apoiavam generosamente.

Dirigentes acreditam, porém, que a falta de dinheiro pode tornar a disputa mais igual, com menor peso do poder econômico. A busca por insumos mais baratos e de mesmo efeito – tecidos, pedras e plumas –, que já vinha de anos anteriores, virou necessidade. Com a baixa nos estoques no comércio carioca, por causa das dificuldades econômicas, as equipes recorreram ao mercado paulista, mais variado. Cidades do interior, como Marília e Americana, entraram no roteiro da matéria-prima de menor custo.

O reaproveitamento de materiais também barateou custos. Para contornar as dificuldades com os barracões inoperantes, no fim de 2017, o trabalho foi levado para a casa de costureiras e artesãos. Apesar dos percalços, o carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira, revelação dos anos 2010, prevê “o melhor carnaval de todos os tempos”. “Sempre trabalhei na dificuldade, então o que a Mangueira dispõe hoje é um parque de diversões para mim.”

Vieira fez da penúria seu enredo: Com Dinheiro ou Sem Dinheiro, Eu Brinco. É uma crítica ao que considera falta de atenção do prefeito Marcelo Crivella (PRB) à folia. “Ter dinheiro e usar tecnologia não determina a qualidade do carnaval. Trabalho num esquema de guerrilha, me sinto mais criativo.”

Desconto à vista. A Mocidade, atual campeã com a Portela, não conseguiu patrocínio para seu enredo sobre a Índia e poupou ao pagar à vista fornecedores paulistas. O Paraíso do Tuiuti, com desfile sobre os resquícios da escravidão, estará reduzida em 400 componentes. A São Clemente, que homenageia os 200 anos da Escola Nacional de Belas Artes, manteve até poucos dias liquidação de fantasias. Anticrise, o Cassino do Chacrinha da Grande Rio vai bradar: “O show não terminou”.

Regras de segurança. Para evitar acidentes, a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) criou novas regras. Os motoristas passarão pelo teste do bafômetro e terão de apresentar carteira de habilitação D ou E, para quem guia ônibus e veículos articulados. O total de pessoas na pista foi reduzido em 40% e o ponto onde a alegoria esmagou uma radialista em 2017 ficará isolado.

Outra medida foi exigir um engenheiro credenciado nos barracões nos últimos meses, durante a confecção dos carros. 

Ironia a Crivella e crítica social vão para avenida

Não é só a Mangueira, um dos destaques da primeira noite na Sapucaí, que fará um desfile crítico. O Paraíso do Tuiuti, que também sai hoje, e a Beija-Flor, que fecha a avenida amanhã, vão retratar mazelas em alegorias e alas. As escolas acreditam que mesmo a corrupção, a miséria e a falta de segurança rendem carnaval.

O Tuiuti grita contra “o cativeiro social” derivado da escravidão e pede: “se eu chorar, não leva a mal”. O desfile fala dos reflexos da subjugação de negros, 130 anos após a Lei Áurea. 

Ao lembrar os 200 anos de Frankenstein, da escritora inglesa Mary Shelley, a Beija-Flor de Nilópolis mira em problemas variados, como as desigualdades sociais – uma escultura de favela será ladeada por uma de prédio de luxo –, a LGBTfobia – Pabllo Vittar será destaque –, a destruição ambiental – um dos carros aparecerá com lixo – e a violência – haverá até simulação de um assalto. 

A “ganância de terno e gravata” cantada pela Azul e Branca virá representada por malas recheadas com notas de R$ 100. 

Tachado de “prefeito anticarnavalesco”, Marcelo Crivella (PRB) é criticado indiretamente pela Mangueira – o refrão diz “pecado é não brincar o carnaval”. O mesmo ocorre com o da Beija-Flor, que critica: “Me chamas tanto de irmão/ e me abandonas ao léu/ troca um pedaço de pão/ por um pedaço de céu”.

O prefeito nega ser contra a folia. Diz que, com a crise, teve de priorizar áreas essenciais, o que provocou cortes de recursos para o carnaval. 

Confira os desfiles do 1º dia

21h15 - Império Serrano

Enredo: O Império na rota da China

22h20 - São Clemente

Enredo: Academicamente popular

23h25 - Unidos de Vila Isabel

Enredo: Corra que o futuro vem aí!

0h30 - Paraíso do Tuiuti

Enredo: Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão? 

1h35 - Grande Rio

Enredo: Vai para o trono ou não vai?

2h40 - Mangueira

Enredo: Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco

3h45 - Mocidade Independente

Enredo: Namastê... A estrela que habita em mim saúda a que existe em você

Mais conteúdo sobre:
carnavalescola de samba

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.