Reprodução MP do Rio
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Escutas revelam ameaças de milicianos presos contra moradores de comunidade no Rio

Gravações fazem parte de denúncia que prendeu cinco supostos integrantes de milícia que atua em Rio das Pedras; relação com morte da vereadora Marielle é apurada

Marina Dayrell e Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

23 Janeiro 2019 | 08h23

Escutas telefônicas feitas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro revelam ações de milicianos presos na Operação Os Intocáveis. Cinco supostos integrantes de uma milícia que atua em Rio das Pedras, na Barra da Tijuca, foram detidos na última terça-feira, 22.

De acordo com o MP, o grupo atuava na grilagem de terras; na compra, venda e aluguel irregular de imóveis; na cobrança irregular de taxas da população local; e na extorsão e na receptação de mercadoria roubada, entre outros crimes.

Em denúncia divulgada pelo Ministério Público, as gravações mostram ameaças dos milicianos aos moradores da comunidade que não pagaram o aluguel de seus empreendimentos imobiliários.

Uma chamada do dia 5 de novembro de 2018, entre Manoel de Brito Batista, conhecido como Cabelo, e uma voz masculina não identificada, o suspeito diz para o outro não deixar uma moradora entrar caso ela não pagasse o aluguel no dia. Segundo o MP, “a utilização da força e a demonstração de poder resta claro nos diálogos”.

MANOEL: Se ele não pagar o aluguel hoje, amanhã é pra travar não deixar ela entrar não tá.

Voz Masculina: A Laila já pagou, o 402 já pagou Manuel, não pagou não, não pagou não, tá sem pagar mesmo.

MANOEL: Se ela não pagar hoje, amanhã não é pra deixar ela entrar não tá.

VM: E o Donato, não pagou também não ou já pagou?

MANOEL: Qual é o apartamento dele? VM: 302.

MANOEL: Tia do Pingo, então avisa aí os dois, se não pagar hoje amanhã de noite não entra ninguém mais se não pagar.

Outros trechos evidenciam a participação ativa de Manoel no ramo imobiliário em Rio das Pedras, além das ligações clandestinas para o abastecimento de água e energia dos empreendimentos.

Ligação de 15 de novembro de 2018:

MANOEL: Eu tenho oito apartamentos naquele prédio, o resto é tudo do Adriano e do Mauricio entendeu, você procura ele e fala com ele entendeu, não adianta ficar me mandando mensagem, e você fala pro João que o Aurélio acabou de me falar aqui que ele falou que vai cortar os cabos lá no Pinheiro, se ele cortar, eu vou cortar os dois braços dele e as duas pernas.

Ligação de 15 de outubro de 2018:

Voz feminina: Eu to ligando a respeito de um apartamento pra alugar.

MANOEL: Aonde a senhora viu?

VF: Eu to dentro de um Condomínio.

MANOEL: Bosque das Pedras?

VF: É, isso bosque das Pedras.

MANOEL: Eu tenho um aí, dois quartos, sala, cozinha e banheiro, Mil e Trezentos Reais.

VF: Com condomínio?

MANOEL: Não paga luz, não paga condomínio, não paga água, não paga nada.

VF: Não paga luz, condomínio, agua, só Mil e Trezentos?

MANOEL: Só.

O caso

Foram presos na última terça-feira, 22, cinco suspeitos:

Maurício Silva da Costa, o tenente reformado Maurição

Ronald Paulo Alves Pereira, o major da PM conhecido como Major Ronald

Laerte Silva de Lima

Manoel de Brito Batista, o Cabelo

Benedito Aurélio Ferreira Carvalho, o Aurélio

Milicianos e o assassinato de Marielle Franco

Um dos detidos é acusado de integrar o Escritório do Crime, organização criminosa suspeita dos assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018.

“Todos esses presos serão ouvidos na expectativa de que possam colaborar com outras investigações. A gente não descarta a participação no crime de Marielle Franco, mas também não podemos afirmar isso neste momento”, afirmou a promotora Simone Sibílio, coordenadora do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MP-RJ). Ela também atua na investigação do assassinato da vereadora. “Algumas pessoas que foram presas hoje (terça) também integram o Escritório do Crime, mas a investigação teve como objetivo combater essa organização em Muzema e Rio das Pedras.”

São Ronald e o ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, que está foragido, os suspeitos de integrar o Escritório do Crime. Trata-se de um grupo de extermínio acusado de assassinar pessoas que “atrapalham” os interesses dos milicianos. Os dois prestaram depoimento como testemunhas na Delegacia de Homicídio na investigação do assassinato da vereadora. A grilagem de terras na zona oeste, principal atividade dos milicianos, é apontada como pano de fundo para o assassinato de Marielle

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