Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

'Essa ocupação foi muito rápida, pareceu só teatro', diz moradora da Rocinha

Sem se identificar e com medo da violência, comunidade diz que foi ameaçada: quem falar vai morrer

Constança Rezende, Roberta Jansen e Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2017 | 16h27
Atualizado 29 de setembro de 2017 | 23h26

RIO - Moradores da Rocinha, na zona sul do Rio, reagiram nesta sexta-feira, 29, com medo ao fim do cerco das Forças Armadas à comunidade, disputada à bala por bandos rivais de traficantes desde o dia 17. Eles temem que a partida dos militares, que cercavam a favela desde o dia 22, resulte na retomada dos confrontos. De um lado estão os cúmplices do atual chefe do tráfico, Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, e do outro, os seguidores de Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, detento do presídio federal de Rondônia.

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Quem mora ou trabalha na favela está inseguro e evita se identificar ao falar. “Não posso dar entrevista, tem muito olheiro espalhado e posso ser punida (pelos traficantes)”, disse uma comerciante. A retirada das tropas de Marinha, Exército e Aeronáutica começou nesta sexta-feira às 3h30 e foi encerrada às 7h30. Outra moradora relatou ao Estado, sob anonimato, a pressão dos traficantes contra os habitantes.

“Os policiais querem que a gente passe informação. Quer dizer, a culpa agora disso tudo é nossa? A polícia sabe de tudo, sempre soube. Sabe onde são as casas dos traficantes, onde fica a academia de ginástica deles, a laje onde eles ficam. Eles fazem reunião com os policiais da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) lá em cima. Isso tudo é uma grande mentira. Eu vou falar o quê? Os meninos (traficantes) já passaram avisando: “Recado do Rogério: quem falar vai morrer”, disse ela.

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Esfaqueamento

Duas horas depois da saída dos militares, o guardião de piscina Fabrício Manhães foi preso por tentativa de homicídio em uma das vias mais movimentadas da favela após esfaquear Carlos Alexandre da Silva, de 19 anos. Ele disse ter vingado o filho, adolescente, que foi torturado e salvo da morte por fuzileiros navais, na véspera, com um colega. 

Segundo Manhães, seu filho foi espancado, amarrado e queimado por comparsas de Nem porque usava um boné que dizia “Jesus Cristo é o dono do lugar”, o lema de Rogério 157. 

Saída

Nesta sexta-feira, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, disse que, se Rogério 157 voltar à Rocinha, as Forças Armadas também retornarão. “Soubemos que ele não estava mais na Rocinha, então não fazia mais sentido manter aquele efetivo lá, paralisado. Estamos organizados para retornar em duas horas, caso sejamos acionados de novo”, afirmou o ministro.

O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), afirmou que, quando pediu a decretação da Operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) no Rio, Marinha, Exército e Aeronáutica pediram para não permanecer muito tempo nas ações. Seus comandos queriam evitar o que aconteceu nos Complexos da Maré e do Alemão, locais onde protagonizaram longas ocupações.

Para o peemedebista, a presença das Forças Armadas na Rocinha trouxe “avanços significativos” para se chegar à paz na comunidade, apesar de o traficante Rogério 157 continuar em liberdade. “Não entramos na Rocinha apenas para prendê-lo, e sim para levar tranquilidade, para os militares conhecerem o terreno”, disse.

Substituição

O secretário de Segurança, Roberto Sá, explicou que os mil militares serão substituídos por 500 PMs. Os policiais farão operações de cerco em 15 pontos e de contenção em outros 14. 

Além disso, o Comando de Operações Especiais e a Coordenadoria de Polícia Pacificadora ficarão na Rocinha por tempo indeterminado. Segundo o delegado Antônio Ricardo Nunes, da 11.ª DP (Rocinha), 81 criminosos foram identificados e 54 mandados de prisões, expedidos. Onze pessoas foram presas na Rocinha e outras seis estão fora da comunidade.

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