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Estudante assassinado temia ser vítima de violência na UFRJ

Segundo irmão, Diego Machado estava com medo de continuar morando no alojamento por ter recebido ameaças por ser gay

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

04 Julho 2016 | 13h49

RIO - O estudante Diego Vieira Machado, de 30 anos, assassinado no sábado no câmpus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Ilha do Fundão, havia recebido ameaças por ser gay e, por isso, estava com medo de continuar morando no alojamento universitário, contou seu irmão, Maycon Machado.

“Diego não tinha medo de dar as suas opiniões. Batia de frente, argumentava. Sofria bullying desde a infância por ser gay, por ter cabelo grande, um estilo diferente. Mas agora a violência parecia real e ele ligou para minha tia para pedir dinheiro e poder sair do alojamento, por não se sentir mais seguro. Minha mãe está em choque, à base de calmantes. Não conseguimos entender, Diego não fazia mal a ninguém”, ele disse, por telefone.

A família é do Pará: parte vive em Belém, parte, em Acará, município de 50 mil habitantes a 100 quilômetros da capital, onde o estudante nasceu. Não o via desde 2013, pois ele não tinha dinheiro para voltar; os parentes tampouco têm condições financeiras de vir ao Rio. O corpo ainda será trasladado para ser enterrado no Pará - por ora, permanece no Rio, para ser necropsiado.

O temor de permanecer na residência estudantil, destinada a alunos pobres e/ou de fora da cidade, se deve a ameaças sofridas pelo estudante recentemente. No dia 11 de maio, começou a circular um e-mail creditado falsamente ao Sistema Integrado de Gestão Acadêmica, o sistema interno usado por professores e alunos, que pode ter tido Machado como alvo.

O texto diz: "Tomem cuidado, observamos tudo e vamos contar tudo! Vamos começar por um certo alun@ que se diz minoria e oprimido por ser homossexual, que gosta de fumar maconha e outras cositas a mais (...), que gosta de mandar e receber nudes de seus amiguinhos pederastas (...). Não vamos ficar sustentando vocês para que vocês fumem seus baseadinhos". O e-mail leva a assinatura da "Juventude Revolucionária Liberal Brasileira.”

No dia 7 de abril, Machado denunciou em seu perfil do Facebook o estupro de um rapaz na Cidade Universitária, ocorrido no dia anterior, por um dos seguranças da obra de um campo de rugby que foi construído lá para o treinamento de atletas da modalidade que vão participar da Olimpíada. "Nossa segurança interna não registrou a ocorrência (...) e ainda usaram desculpas do tipo 'mas o que você estava fazendo aí?' Essa é a nossa segurança", ele escreveu.

Machado morava no Rio desde 2011 e começou o curso de Letras, com habilitação em hebraico, no primeiro semestre de 2012. Entrou pelo sistema de cotas. “Ele tinha o sonho de morar no Rio de Janeiro, era fascinado. Sempre foi estudioso e a nota no Enem seria suficiente para entrar em faculdades de outros Estados. Queria o Rio. Era muito inteligente, conhecia várias línguas, escrevia muito bem. Era cotista por ser negro e de baixa renda”, disse o irmão.

O corpo do estudante foi encontrado no sábado na Baía de Guanabara, que banha os fundos do câmpus. Tinha sinais de espancamento na cabeça e estava de camiseta e sem calça, mais um indício de crime motivado por homofobia. O delegado Fábio Cardoso, titular da Divisão de Homicídios, que apura o caso, disse que essa é a principal linha de investigação.

"A necropsia vai dizer se ele sofreu algum tipo de abuso antes ou depois. Tudo indica que ele foi agredido no câmpus e jogado na baía", descreveu o delegado, que ouviu nesta segunda depoimentos de seis estudantes. Eles relataram tê-lo visto pela última vez na manhã de sábado.

Nesta segunda, durante uma reunião na reitoria da UFRJ, alunos e professores relataram episódios de homofobia recorrentes nas dependências da universidade. No banheiro da Escola de Comunicação, no câmpus da Praia Vermelha, foi feita uma pichação "Morte aos gays da UFRJ". Em outro banheiro, este no Centro Técnico da Engenharia, no Fundão, foi escrito "Só tem viado nessa porra" (sic).

"Não podemos naturalizar esse discurso de ódio. É um corpo negro e gay abatido no chão. É um sinal da onda de conservadorismo na universidade, que acaba não só com a nossa liberdade, mas com a nossa vida", lamentou o aluno da Engenharia Brenner Oliveira, de 24 anos, do Diretório Central dos Estudantes. O DCE está organizando um ato para a próxima quinta-feira, em memória do colega vitimado.

O reitor da UFRJ, Roberto Lehrer, classificou o crime de "bárbaro e perverso". "Essas formas de expressão homofóbicas que estamos vendo são inadmissíveis. Somos um espaço civilizatório e não podemos aceitar qualquer forma de intolerância que diga respeito a racismo e homofobia", afirmou, referindo-se ao e-mail ofensivo de maio. A mensagem teria partido de um site do Canadá, conforme já revelou uma investigação iniciada pela delegacia da Polícia Federal especializada em crimes cibernéticos, segundo Lehrer.

A UFRJ vem trabalhando com seus professores e funcionários técnicos no sentido de coibir comportamentos homofóbicos, de acordo com o reitor. Ele disse que o segurança autor do estupro de abril foi identificado e não era da instituição, e sim da empresa responsável pela obra do campo de rugby. Lehrer negou que o câmpus do Fundão seja perigoso - uma reclamação antiga de alunos e trabalhadores, que relatam assaltos -, embora reconheça que o efetivo de seguranças seja insuficiente.

A professora Eleonora Ziller, diretora da Faculdade de Letras, acredita que o fato de Machado ser um aluno que levantava a bandeira dos direitos das pessoas LGBT torna o crime ainda mais grave. "Se é assim que vamos lidar com a diversidade na UFRJ, é melhor fecharmos as portas." Ele é descrito como atuante na comunidade universitária, tendo participado da ocupação da reitoria, ano passado, por melhoria nas condições de ensino.

"Se confirmar que se trata de um crime de homofobia será a confirmação de que vivemos um período de retrocesso na garantia dos direitos civis da população LGBT. Somente no mês de junho foram sete assassinatos contra esta população e, alguns, com viés de homofobia", declarou o secretário de Assistência e Direitos Humanos, Paulo Melo. O caso está sendo acompanhado também pelos órgãos do Estado e do município que tratam da diversidade sexual.

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