'Foi uma tragédia anunciada', diz ex-morador de quitinete

Homem viveu mais de um ano no local que explodiu e o deixou por causa do temor de explosão; rastros de destruição assustaram

Carina Bacelar e Juliana Dal Piva, O Estado de S. Paulo

19 Outubro 2015 | 14h32

RIO - O construtor Roberto Carlos Barcanias, de 47 anos, morou pouco mais de um ano em uma das quitinetes que ficam atrás do prédio que explodiu na madrugada desta segunda-feira, 19, em São Cristóvão, na zona norte do Rio de Janeiro. Para ele, a expectativa de tragédia era iminente. Por isso, ele deixou o local.

"Foi uma tragédia anunciada. A prefeitura tem que fiscalizar mais. Esse povo tem que sair do gabinete. Por trás, pelo muro que era baixo, a gente conseguia ver os cilindros tanto no restaurante quanto na pizzaria. Eu sentia um cheiro de gás. Sou construtor então ficava preocupado com isso", disse Barcanias. "Não consegui denunciar, mas procurei sair dali logo."

Ele afirmou que, embora não tenha registrado reclamação, outros amigos que moravam no local tinham tentando falar com os donos tanto da pizzaria quanto do restaurante.

"Parece que não foi tomada nenhuma iniciativa para resolver o problema. Era muito quente lá e muito abafado. Não tinha janela, só porta", contou ele.

Entulho de obra. O casal de aposentados Ana Maria Dias, 63 anos, e David Souza, de 65, morava na última quitinete de um dos prédios. Os dois dormiam tranquilos quando acordaram com o barulho da explosão. 

"Acordamos com o barulho da explosão e tudo caindo em cima. Desabou o telhado todo em cima da gente. Se você olhasse para cima, você viu o céu como estou vendo aqui agora. A casa ficou completamente destruída. Já viu entulho de obra? A nossa casa é aquilo", disse Ana Maria, que teve um corte na perna.

David Souza disse que a filha do casal acabou protegida por escombros que não caíram totalmente e amorteceram o restante do que despencava. 

(Depoimento da costureira Marlene Sangy, de 46 anos)

"Era mais ou menos umas três horas da manhã quando as coisas começaram a desabar em cima da gente. Caiu telhado, forro, tudo. Eu pulei em cima dela (esposa) para protegê-la", contou Souza. "Minha filha foi protegida por uma telha de alumínio que caiu por cima. Quando saímos dali para o corredor ficamos ilhados porque a nossa quitinete é a última lá para trás. Não tinha como a gente sair pela frente. Aí o bombeiro entrou e resgatou a gente."

No prédio na frente do local onde aconteceu a explosão, os moradores também foram acordados com o estrondo e rastros de destruição. A dona de casa Jorléia da Silva Santos, de 57 anos, disse que mesmo tomando calmantes não conseguiu se acalmar.

"Meu filho falou que parecia uma batida de carro. Cada um interpreta de um jeito. Eu achei que o mundo estava acabando, tudo desabando e caindo. Eu tomo remédio para dormir e nem como o remédio me acalmei", disse Jorléia. No apartamento dela, apenas a vidraça de uma janela ficou destruída.

Logo após a explosão, ela desceu com o marido, filhos e neto pelas escadas do prédio para ver o que tinha acontecido. No caminho encontrou a aposentada Cristina Melo, de 59 anos, sua vizinha. Cristina diz que estava indo ao banheiro quando ocorreu a explosão. Na casa dela os estragos foram bem maiores.

"Quero que a Defesa Civil vá lá olhar porque eu tive sete vidraças quebradas, duas portas emperraram, caiu todo o gesso do banheiro e até a descarga deslocou do lugar", explicou a moradora.

 

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