Fábio Motta/ Estadão
Fábio Motta/ Estadão

Foragido, Fat Family começou a matar aos 15

Bandido mais procurado do Rio ascendeu no crime após prisão do irmão, líder de facção

Clarissa Thomé e Constança Rezende, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2016 | 17h16

RIO - Nicolas Labre Pereira de Jesus tinha 15 anos quando foi acusado pelo primeiro crime: assassinato. O caso foi registrado na 7.ª Delegacia de Polícia, em Santa Teresa, região central do Rio. Era 2003. O garoto, já conhecido pelo apelido de Fat Family, receberia mais duas anotações por homicídio e uma por roubo ainda na adolescência.

Com a prisão do irmão mais velho, Marco Antonio Pereira Firmino da Silva, o My Thor, um dos líderes da facção criminosa Comando Vermelho (CV), Fat Family ganhou espaço na hierarquia do tráfico. A ponto de justificar a ação para seu resgate do Hospital Municipal Souza Aguiar, referência para atendimento na Olimpíada, na madrugada do dia 19. Um paciente morreu no tiroteio entre policiais e os invasores.

Fat Family cresceu numa família de bandidos. Tanto o pai, Jorge Edison Pereira Firmino, quanto a mãe, Jurema Labre, têm antecedentes criminais. Ela é acusada de associação para o tráfico. Ele, que está preso, por tráfico e roubo. Quando o menino ainda fazia pequenos serviços como “avião” ou “olheiro”, My Thor já era considerado um dos mais perigosos - e cruéis - criminosos da cidade. Chefe do tráfico do Morro Santo Amaro, no Catete, zona sul, punia com a morte aqueles que desobedeciam suas ordens.

O menino tinha 9 anos quando ficou conhecida a história de que o irmão comandou a tortura de um adolescente de 14 anos, por praticar assaltos na subida do Santo Amaro. Um comerciante foi assassinado porque não cumpriu a determinação de My Thor de encerrar o pagode em seu bar. Também mandou matar a namorada e mãe do seu filho por desconfiar que havia sido traído. Já preso em Bangu 1, comandou, ao lado de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, um levante que deixou seis mortos de uma facção rival, entre eles Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, um dos mais famosos traficantes da história do Rio.

Assim que My Thor foi transferido para presídio federal fora do Rio, na década passada, Fat Family começou a ganhar posições no CV.

O Santo Amaro se firmou como referência para o consumo de crack da zona sul. As calçadas da Rua Pedro Américo, uma das principais do Catete, viraram cracolândia. Fat Family circulava pela favela com armas como fuzis e granadas. 

Crimes. Na noite de 10 de setembro de 2010, Fat Family estava em um Astra roubado, em alta velocidade, quando policiais militares ordenaram que parasse. Com parte do corpo para fora da janela, ele “puxou uma arma, provavelmente uma submetralhadora, e efetuou vários disparos”, contou o PM Leandro Queiroz Lima, ferido por um tiro na perna esquerda. Foi ainda acusado de matar o traficante Thiago da Silva Andrade, o Gordinho, em março daquele ano. Em novembro de 2010, mais uma acusação: a de ter assassinado dois sargentos na Praia do Barbudo, na Lagoa de Araruama, no Rio. 

Apesar de o Morro Santo Amaro estar ocupado pela Força Nacional de Segurança desde 2012, Fat Family havia voltado à favela e chefiava a quadrilha de traficantes. Em 13 de junho, foi preso, ferido com um tiro no rosto, por agentes da Delegacia de Combate às Drogas. Ficou internado sob custódia no hospital. Menos de uma semana depois, 25 homens invadiram a unidade para resgatá-lo.

Vinte e sete batalhões da PM têm feito operações diárias na tentativa de recapturá-lo. Ainda não conseguiram prendê-lo, apesar de Fat Family pesar 120 kg e estar ferido no rosto. Ele seria operado caso não tivesse sido resgatado. Fat Family tem trocado de esconderijo a cada dois dias. Até sexta-feira, dez pessoas morreram e ao menos 150 foram presas nas incursões policiais atrás do foragido.

Entrevista

4 perguntas para Fernando Veloso, chefe da Polícia Civil do Rio

1. O que mais preocupa a chefia da Polícia Civil em relação à crise financeira do Estado?

A preocupação primária é com o fator humano, isto é, com a dignidade do policial civil para realizar sua missão constitucional. A crise e seu efeito colateral no funcionalismo retira a serenidade do policial para investigar e atender à sociedade, diante da incerteza de saber se poderá honrar as suas contas no fim do mês. A segunda preocupação tem a ver com a falta de investimento material e aparelhamento da Polícia Civil para tornar mais eficiente o combate à criminalidade, que cada vez se estrutura mais (no dia 24, uma operação para prender o traficante Fat Family fracassou, segundo o diretor do Departamento de Polícia Especializada, Ronaldo Oliveira, porque as equipes não tiveram apoio do helicóptero da Polícia Civil, que não voa há três meses por falta de manutenção).

2. Em que isso pode afetar a sociedade?

Pode afetar a sociedade no sentido de que o direito de coexistir em coletividade resta ameaçado. Não existe possibilidade de saúde de qualidade, trabalho digno e lazer com a família sem o pressuposto da segurança pública.

3. O que pode acontecer se o quadro se agravar?

A Polícia Civil, diante da carência de recursos, vem otimizando esforços e reinventando seu negócio diariamente para atender a sociedade, fazendo mais com menos. Entretanto, mesmo a capacidade inventiva da polícia de se adaptar às dificuldades tem limites na própria realidade.

4. Como o senhor avalia a paralisação da Polícia Civil (na semana passada)?

A Chefia entendeu justa e motivada a reivindicação. 

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