Gestão Cabral apreende menos e prisões diminuem no Rio

Recuo dos índices na atual gestão coincide com explosão em roubo a ônibus e a pedestre na cidade

Wilson Tosta, de O Estado de S. Paulo,

25 de outubro de 2009 | 09h03

Uma comparação de números brutos de segurança pública de 32 meses do atual governo do Rio com dados de igual período da administração passada indica contradições entre a política de confronto com o crime, propalada pelo governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), e os resultados reais. O levantamento, feito pelo Estado no site do Instituto de Segurança Pública (ISP), mostra que nesta gestão as polícias fizeram 33,56% menos apreensões de armas, 13,87% menos de drogas e 20,2% menos prisões em comparação com a anterior, de Rosinha Garotinho (PMDB), criticada por sua política e resultados na área de segurança.

 

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Na outra ponta, subiram roubos a ônibus (53,91%) e a transeuntes (183,1%). O atual governo, porém, diz que homicídios e roubos de veículos caem e lembra que os dados de apreensão de drogas não são por peso.

 

A comparação mostra que, no governo Cabral, foram apreendidas 26.706 armas, ante 40.198 no período correspondente da gestão anterior. Por mês, isso significou recuo nas médias de 1.256,18 para 834,56 armas apreendidas. Em drogas, o número de apreensões caiu de 31.803 para 27.390. A diminuição nas prisões foi de 58.706, em 32 meses da gestão passada, para 46.840 no governo atual. Mensalmente, o recuo na média foi de 1.834,56 para 1.463,75 suspeitos presos. Ou seja, a cada mês do governo Rosinha (janeiro de 2003 a agosto de 2005), foram recolhidas 421,62 armas ilegais a mais e acabaram presas 370,8 pessoas também a mais, na comparação com período equivalente do governo Cabral.

 

"A estratégia de focar as intervenções da polícia no combate ao tráfico não está sendo eficaz", diz o coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio (UERJ), João Trajano Sento-Sé. "As grandes operações policiais têm servido para matar pessoas radicadas nas comunidades pobres, independentemente de serem criminosas ou não." Os autos, que registram as mortes de cidadãos pelas polícias em supostos confrontos, subiram entre os dois períodos analisados: de 2.896 (90,5 mensais) para 3.187 (99,6 por mês), mais 10,04%. A Secretaria de Segurança, em outra comparação, porém, diz que a taxa por 100 mil habitantes está caindo: de 6,9 autos em 2008 para 4,3 em 2009.

 

Os números chocam, principalmente em uma semana marcada por episódios de violência que envolveram tanto armamento pesado - caso do helicóptero da PM abatido por traficantes no Morro dos Macacos - como leve, no caso do assassinato do coordenador do AfroReggae Evandro João da Silva. Mas pesquisadores advertem para o perigo de simplificações, como atribuir o crescimento dos crimes à redução nas apreensões e nas prisões.

 

A coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, Silvia Ramos, lembra que um fenômeno como o aumento dos assaltos não é "unicausal", mas espanta-se com os dados. "Vem crescendo desde o fim do último governo." Para ela, a crise no mercado de drogas está erodindo as fronteiras entre traficantes e ladrões, levando criminosos antes envolvidos com o tráfico a usar em assaltos as armas destinadas à proteção dos pontos de venda. A pesquisadora diz que a morte do coordenador do AfroReggae é caso "típico" da onda de roubos: uma pessoa foi morta a tiros por causa de um par de tênis e uma jaqueta.

 

O levantamento do Estado mostra que, nos 32 primeiros meses do governo passado, enquanto caíam os números de prisões e de apreensões de armas, foram registrados 62.648 roubos a transeuntes e, no governo Cabral, até agosto, 177.357. Só em janeiro de 2003 e em janeiro de 2007 - os primeiros meses das duas administrações -, o número de ocorrências pulou de 1.427 para 4.270, mais 299,22%. Do patamar de cerca de 1.500 ocorrências mensais, chegou-se ao de 3 mil no 29º mês de governo Rosinha.

 

Sento-Sé reconhece a tendência de o crime se deslocar de atividade e área, se for sufocado, mas diz não se sentir seguro para afirmar que isso esteja ocorrendo. "As autoridades tendem a fazer essa relação para valorizar o suposto sucesso de seu combate ao tráfico, mas isso se esvai se não há aumento na apreensão de armas e drogas". Ele avalia que a repercussão de ações policiais na imprensa influencia nas escolhas da polícia, que tenderia a dar prioridade a operações de impacto, como incursões em favelas.

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