Reprodução redes sociais
Reprodução redes sociais

Grávida de 24 anos é baleada e morre em meio a operação policial na zona norte do Rio

Polícia diz que houve troca de tiros com criminosos no Lins de Vasconcelos. Kathlen de Oliveira Romeu chegou a ser socorrida após bala perdida, mas morreu na chegada ao hospital. Ela estava grávida de quatro meses

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2021 | 18h47
Atualizado 09 de junho de 2021 | 12h56

Uma designer de interiores de 24 anos, grávida de quatro meses, morreu atingida por uma bala perdida, na tarde desta terça-feira, 8, durante uma troca de tiros entre policiais militares e criminosos no Lins de Vasconcelos, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. Kathlen de Oliveira Romeu foi levada para o hospital, mas morreu assim que chegou.

A Polícia Civil vai tentar identificar o autor do tiro que atingiu a mulher. Segundo dados do Instituto Fogo Cruzado, que produz estatísticas sobre violência no Rio, foi a 15.ª grávida atingida por bala perdida na região metropolitana do Rio desde 2017. Oito morreram e sete sobreviveram. Em cinco casos, o bebê não foi atingido. Nos dez casos em que o bebê foi atingido, só um sobreviveu.

Kathlen era casada e estava grávida de 14 semanas do primeiro filho. Além de ser designer de interiores, trabalhava como vendedora em uma loja de roupas em Ipanema (zona sul). Ela havia se mudado do Lins havia um mês, exatamente por conta da violência, e nesta terça-feira foi ao bairro para visitar a avó, que estava ao seu lado no momento em que foi baleada. A avó saiu ilesa.

Ambas estavam na rua, perto do Beco do 14, indo à casa de uma tia de Kathlen, para quem elas levavam comida. “Quando nós passamos, a rua estava tranquila. Foi tudo muito de repente”, contou a avó de Kathlen, identificada apenas como Sayonara. “De repente a minha neta caiu, era polícia para tudo quanto é lado, eu me joguei para proteger ela e só vi o furo no braço dela”, afirmou, em prantos, na frente do hospital.

“A menina tem um mês que saiu dali por causa desses perigos. Aquele Lins, aquela minha rua está muito perigosa. Perdi desse jeito mais estúpido uma garota que trabalha, que estuda, formada, perdi num tiroteio bárbaro. A gente não tem culpa de nada.”

No Instagram, Kathlen tinha mais de 6 mil seguidores. Ao longo desta terça-feira, após sua morte, o número se multiplicou e às 21h30 se aproximava de 9 mil. Nessa rede social, a última postagem da grávida foi uma foto de si própria, exibindo a barriga, em que escreveu “bom dia, neném”.

Segundo nota da Polícia Militar, policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) foram atacados a tiros por criminosos quando passavam pela localidade conhecida como Beco do 14. Ali começou um confronto, com troca de tiros. A PM informou que, depois do tiroteio, Kathlen foi encontrada ferida e levada ao hospital municipal Salgado Filho, no Méier (zona norte), onde morreu.

A Delegacia de Homicídio da capital vai tentar identificar de onde partiu o tiro que matou a grávida. Após o tiroteio, a PM fez buscas e apreendeu um carregador de fuzil, munições de calibre 9 mm e drogas. Ninguém foi preso.

Para a cientista social Silvia Ramos, coordenadora da Rede de Observatórios da Segurança, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), que reúne instituições acadêmicas e da sociedade civil da Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo para acompanhar políticas públicas de segurança, a estratégia da polícia precisa mudar.

“As polícias do Rio de Janeiro vêm contabilizando vítimas, sempre das favelas e a maioria negras, e os resultados são o fortalecimento das facções do tráfico e das milícias. Ao longo de anos, após cada operação policial, depois de cada morte, os grupos armados, em vez de se desarticularem, se fortalecem. Por que a polícia do Rio não muda sua estratégia de confrontos, tiroteios e letalidade para uma estratégia de inteligência e proteção da vida?”, questiona.

“Está na hora de o governador do Rio de Janeiro reconhecer o erro das políticas de segurança baseadas em operações e tiroteios. Está na hora do Supremo Tribunal Federal cobrar resultados da sua determinação de redução dos confrontos e mortes no Rio de Janeiro”, afirmou.

Protesto

Após a morte de Kathlen, por volta das 16h15 moradores do Lins de Vasconcelos interditaram os dois sentidos da autoestrada Grajaú-Jacarepaguá, na altura do Lins, em protesto que gerou grande congestionamento na região. O trânsito foi liberado no sentido Grajaú às 18h40 e no sentido Jacarepaguá às 19h, mas o protesto continuou por mais uma hora em ruas internas do bairro de Lins de Vasconcelos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.