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Grupo de estudantes da Uerj impede debate sobre UPP

Alunos ocuparam auditório onde estava o comandante das Unidades de Polícia Pacificadora; professores lançaram nota de repúdio

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

16 Outubro 2014 | 19h52

RIO - Duzentos e cinquenta professores e pesquisadores do País subscreveram uma "nota de repúdio" no Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) contra ato de estudantes da Faculdade de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Um grupo impediu o lançamento do livro "Os Donos do Morro" e um debate sobre as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), na noite de terça-feira, 14. Com apitos e gritando palavras de ordem, os alunos ocuparam o auditório, onde estavam o sociólogo Ignacio Cano, um dos autores do livro, o comandante das UPPs, coronel Frederico Caldas, além de representantes da ONG Justiça Global e lideranças comunitárias.

"É inadmissível, moral e eticamente, que grupos autoritários decidam o que pode ou não pode ser debatido na universidade e/ou quem pode ou não participar dos debates. Esse não é um caso isolado e é preciso denunciar essa postura, que tem ganhado corpo nas Universidades", diz o texto, assinado pela cientista política Sílvia Ramos, o cientista político Paulo Sérgio Pinheiro, integrante da Comissão Nacional da Verdade, o economista Daniel Cerqueira, diretor do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), entre outros.

Os estudantes gritavam palavras de ordem lembrando a morte do pedreiro Amarildo Souza, morto na UPP da Rocinha, e cobravam a desmilitarização da PM. Convidados a integrar a mesa do debate, recusaram-se. "Disseram que impediriam o evento e que polícia só tinha que entrar na universidade depois de passar no vestibular", contou Cano, coordenador do Laboratório de Análise da Violência.

Cano disse ainda que os jovens ficaram agressivos e chegaram a jogar água em Dawid Bartelt, representante no Brasil da Fundação Heinrich Böll, organização alemã que financiou a pesquisa. Bartelt teve de sair sob escolta. "Foi uma vergonha. Se formos trocar o argumento pelo grito, a experiência empírica pela palavra de ordem, então seria melhor fechar a universidade", afirmou o sociólogo.

Bartelt disse que não se sentiu ameaçado em momento algum, "porque foi um ato político, e a intenção não era agredir", mas também criticou o protesto. "A ação dos manifestantes silenciou vozes críticas à política de pacificação, entre elas a de uma líder comunitária do Fogueteiro, em Santa Teresa, que perdeu a oportunidade de trazer experiências próprias e falar cara a cara com o policial responsável pelas UPPs", afirmou Bartelt. "Eles não leram a obra e acharam que fosse um livro de apologia às UPPs".

Na página do Centro Acadêmico de História da Uerj (Cahis), os estudantes justificaram o ato "contra o comandante das UPPs", lembrando que a Uerj foi pioneira ao admitir estudantes pelo sistema de cotas raciais. "(A Uerj) foi a primeira a ter em suas salas estudantes negros, pobres e favelados. Sendo assim, não poderíamos permitir a realização de um evento sobre as Unidades de Polícia 'Pacificadoras' que assassinam diariamente esses mesmos jovens negros e favelados", escreveram.

Eles foram criticados por outros estudantes da Uerj, que disseram que o protesto não foi discutido amplamente com os alunos, mas decidido por um pequeno grupo, que convocou os demais "nos corredores". 

"Um episódio muito grave de intolerância e preconceito. Mais grave ainda por ser dentro de universidade e por se tratar da divulgação do resultado de uma pesquisa", afirmou a cientista social Sílvia Ramos. O sociólogo Luiz Eduardo Soares comparou, no Facebook, a ação dos estudantes à do Comando de Caça aos Comunistas, grupo paramilitar que atuou nos anos de 1960. "Desde a época da ditadura e das incursões brutais do CCC em teatros e espaços acadêmicos, não soube de nada comparável", escreveu no Facebook.

Os estudantes também responderam pela rede social. "Se hoje existe algum resquício do CCC, este pode ser encontrado na Polícia Militar e não no Movimento Estudantil da UERJ". (...) "Somos totalmente contrários a dar mais espaço que o coronel Frederico Caldas já possui para defender esse projeto falido de segurança pública. Até porque quando essa polícia entra nas favelas não há debate, não há controvérsia, apenas a força do fuzil. Apenas silenciamos o coronel Caldas da mesma forma que milhares de jovens e mulheres pobres e negros/negras são silenciados todos os dias nas favelas cariocas".

Procurados pelo Estado, os representantes do Cahis não responderam às perguntas enviadas até as 18h30 desta quinta-feira.

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