Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Guerra entre facções põe Rio em alerta; Pezão pede apoio federal

Tentativa do Comando Vermelho de retomar área ocupada pelo Terceiro Comando Puro mobiliza criminosos de 9 morros e exige ação de 5 batalhões

Constança Rezende e Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2017 | 23h19

RIO - Uma guerra de facções criminosas, interceptada pela Polícia Militar, deixou nesta terça-feira, 2, a cidade do Rio em alerta, bloqueou a Avenida Brasil e a Rodovia Washington Luiz, na zona norte e Baixada Fluminense, com nove ônibus e dois caminhões incendiados (e saqueados). Dois supostos criminosos foram mortos, três policiais ficaram levemente feridos e 45 suspeitos foram presos. A Polícia apreendeu 32 fuzis, 6 pistolas e 10 granadas. Os intensos tiroteios, os incêndios e as novas tentativas de saque contra veículos que passavam – com moradores chegando a pará-los com ameaças e até com objetos na pista – provocaram quilômetros de engarrafamento.

O governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) pediu ao presidente Michel Temer reforço de tropas da Força Nacional de Segurança e Polícia Rodoviária Federal para ajudar no combate ao crime. Negou, porém, que o pedido tivesse relação com os incidentes. Disse que já tratara do assunto com o Planalto na semana passada, por causa da grande quantidade de fuzis que têm sido apreendidos no Estado desde o início de 2017.

Segundo a Polícia Civil, o Comando Vermelho (CV) se organizou para retomar do Terceiro Comando Puro (TCP) o controle sobre a favela Cidade Alta, que fica no bairro de Cordovil, às margens da Avenida Brasil. Em outubro, o TCP havia expulsado o CV dessa comunidade, diz a polícia. Na madrugada desta terça, integrantes do CV partiram de pelo menos nove favelas da Região Metropolitana para retomar a área e atacar os rivais em Cordovil. A PM interceptou os criminosos e houve confrontos, seguidos pelo incêndio dos veículos.

Segundo a polícia, os criminosos partiram das favelas do Borel, Formiga, Kelson’s, Vila Cruzeiro, Penha (todas no Rio), Salgueiro (em São Gonçalo, na Região Metropolitana) e outras de Duque de Caxias (Baixada Fluminense). Todas são controladas pelo CV. Quando detectou a movimentação, a Polícia Militar mobilizou cinco batalhões (16.°, 21.º, 22.º, Batalhão de Operações Especiais e Batalhão de Ações com Cães).

A interceptação da polícia não impediu tiroteios entre criminosos rivais. Simultaneamente, bandidos atacaram ônibus, principalmente na Avenida Brasil e nas imediações da Rodovia Washington Luiz, que liga o Rio a Minas. Os incêndios complicaram o trânsito na cidade por mais de três horas. Também foram incendiados dois caminhões. Em meio à confusão, criminosos chegaram a trafegar pela Avenida Brasil dando tiros para o alto.

À tarde, dezenas de pessoas saquearam um dos caminhões incendiados, na Avenida Brasil. Policiais militares estavam a um quarteirão, mas não tentaram impedir. Entre as cargas saqueadas havia muitas bisnagas de creme dental. Os saqueadores, homens e mulheres, levavam tudo em sacolas plásticas e ainda tentaram parar caminhões na via para saqueá-los, mas não conseguiram. O caminhão saqueado estava próximo do Mercado São Sebastião, na altura da Penha (zona norte). Ao perceber que eram observados por uma equipe de reportagem do Estado, saqueadores ordenaram que a equipe se retirasse e não fizesse fotos. “Toca seu rumo, toca seu rumo”, repetiram.

Disputa entre facções. Segundo a Polícia, essa disputa entre CV e TCP não envolve a facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC), suspeita de tentar se infiltrar no Rio. O histórico de conflitos no Rio opõe três facções: o Comando Vermelho, o Terceiro Comando Puro e o grupo denominado Amigos dos Amigos (ADA). 

Enquanto a Polícia Civil afirma que o TCP expulsou o CV e dominava a favela da Cidade Alta desde o ano passado, policiais militares afirmaram que até recentemente era a ADA que dominava a comunidade. Chefes dessa quadrilha teriam aderido ao TCP e portanto estava ocorrendo uma transição entre as duas facções. Segundo essa versão, o Comando Vermelho queria aproveitar a troca de comando para assumir o controle do tráfico na área. / COLABOROU WILSON TOSTA

Nº de queimados já supera o de todo o ano de 2016

O número de ônibus incendiados por criminosos no Rio de Janeiro nos pouco mais de quatro meses deste ano já supera o registrado ao longo de todo o ano passado. Após a ação orquestrada por traficantes na manhã desta terça-feira, quando nove ônibus foram queimados na zona norte do Rio de Janeiro e em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, já chega a 52 o total de coletivos queimados em 2017. Em 2016, foram 43. 

Os dados foram fornecidos pela Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor), que em nota oficial repudiou os ataques. "O custo estimado para a reposição da frota incendiada este ano já chega a R$ 22 milhões", informou a entidade, que ressaltou ainda que "não há seguro para casos de incêndios criminosos". /MARCIO DOLZAN

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