Homem registra frustração da filha por perder mais um dia de aula no Rio: 'É tiro de novo, pai?'

Fagner França publicou foto da pequena Alicy, de 4 anos, nas redes; menina, que mora na Maré, não pode ir escola por causa de tiroteios

O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2017 | 19h26

RIO - Sem poder ir à creche mais uma vez nesta terça-feira, 13, por causa dos tiroteios que se sucedem no complexo de favelas da Maré, na zona norte do Rio, a pequena Alicy, de 4 anos, chorou e reclamou com o pai: "Escuta esse barulho, pai, é tiro de novo, né? Caramba, não vai ter aula!"

O fotógrafo Fagner França, de 26 anos, registrou a decepção da filha, parada na porta de casa, e a foto repercutiu nas redes sociais. "Ela cursa a pré-escola na creche municipal Monteiro Lobato, e neste ano já ficou vários dias sem aulas por conta dos tiroteios", conta o pai. "Nesses casos pedimos para a avó ficar com ela, mas nem sempre ela pode. Aí eu ou a mãe temos que faltar ao trabalho para ficar com ela", afirma.

Para França, a violência na Maré só tem aumentado, "como em todo o Rio": "No período da ocupação (pelas forças de segurança federais, numa preparação para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora que acabou sendo cancelada) o que houve foi maquiagem. Esconderam a violência, mas ela nunca desapareceu", conta.

Apesar da rotina que implica até em risco de morte, o fotógrafo não cogita sair da favela: "Eu moro aqui desde que nasci, há 26 anos, e minha mãe mora há 70. Esse é o meu lugar e é aqui que vou criar minha filha. Temos que fazer essa violência acabar, não fugir daqui", afirmou.

Nesta terça-feira, 7.596 alunos de 12 escolas, quatro creches e cinco EDIs (Espaços de Desenvolvimento Infantil) do complexo da Maré ficaram sem aulas, segundo a prefeitura. A Polícia Civil promoveu uma operação para recuperar cargas roubadas e combater o tráfico de drogas. Houve confrontos e intensos tiroteios, e um homem morreu e dois ficaram feridos. 

William Carlos Costa Machado, de 20 anos, foi baleado e morreu após ter sido socorrido no Hospital Federal de Bonsucesso. Jandson Josué da Silva Belizário, de 24, e Bruno Braga de Freitas, de 26, foram baleados e estão sob custódia na mesma unidade. Freitas chegou a ser levado por comparsas para um hospital particular, mas foi localizado pelos policiais, detido e transferido. Belizário e Freitas foram presos em flagrante pelos crimes de tráfico, associação para o tráfico de drogas e porte ilegal de arma de uso restrito.

 

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