Wilton Júnior / Estadão
Wilton Júnior / Estadão

Hospitais subestimam risco de incêndios, diz especialista

'Panorama passou do ponto preocupante faz tempo', afirma o engenheiro eletricista Marco Kahn; segundo ele, poder público e gestores do setor privado falham na prevenção

Bianca Gomes, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2019 | 14h28

SÃO PAULO - Os hospitais estão entre os imóveis mais negligenciados em relação à proteção contra incêndios. A constatação é do engenheiro especialista em segurança contra incêndio e presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar (ABDEH), Marcos Kahn. "A falsa crença de que 'o meu hospital não pega fogo' aliada à impunidade e à certeza de que os bombeiros não vão fechar um hospital que não esteja em risco iminente contribuem para essa negligência”, afirmou.

De acordo com o especialista, a situação é grave tanto na rede pública quanto na particular. "A gente vê que o panorama já passou do ponto preocupante faz muito tempo. Temos uma situação muito grave na maioria dos hospitais públicos e grave na maioria dos privados. São poucas as exceções", disse. "Se a gente sair da esfera dos hospitais de primeira linha, a gente vai perceber que essa questão é deixada para um segundo ou terceiro plano nos setor privado."

Segundo Kahn, atualmente, apenas 10% ou menos dos hospitais públicos do País possuem documentação regular junto ao Corpo de Bombeiros para funcionar. "Apesar disso, a chance de um estabelecimento ser fechado é muito pequena, já que faltam hospitais para a população."

E mesmo os hospitais que possuem a documentação em dia não colocam em prática medidas de segurança contra incêndio. "Não há uma rotina de prevenção estabelecida. Os planos de contingência tratam, em geral, de catástrofes externas. Poucos se preocupam com situações que possam acontecer dentro do local."

Risco de incêndio em hospitais é maior

Os hospitais apresentam um risco de incêndio superior ao de outras edificações, de acordo com o engenheiro. "Há instalações elétricas em grandes quantidades, moto geradores de diesel e depósitos de vários produtos inflamáveis utilizados na própria assepsia", explicou.

A situação é agravada ainda pela dificuldade da desocupação, dado que os ocupantes de hospitais são os mais fragilizados para escapar com uma situação de fogo. "A maioria não consegue se valer por si para sair do local. O paciente está ligado a equipamentos, muitas vezes imobilizado, com dificuldade respiratória", afirmou Kahn . "Por isso, quando um incêndio acontece nessas edificações, a consequência é sempre mais grave. O potencial de vítimas é muito maior."

Autoridades precisam cobrar

A exigência de um documento do Corpo de Bombeiros que ateste que a edificação possui condições de segurança contra incêndio não basta para evitar desastres como o do Hospital Badim, de acordo com o especialista.

"É preciso ter a continuidade das ações monitoradas. O hospital deveria ter de comprovar que houve treinamento, exercício simulado. E é preciso cobrar financeiramente os responsáveis, como acontece em outros países", disse. "Infelizmente, a área da proteção contra incêndio avança no Brasil e no mundo em função dos grandes desastres. É preciso conscientização do risco e investimento."

Em nota divulgada na madrugada dessa sexta, o Hospital Badim informou que 103 pacientes estavam internados no local no momento do incêndio. Imediatamente, declarou a direção, a brigada de incêndio iniciou a evacuação do prédio, mesmo antes da chegada do Corpo de Bombeiros. O hospital informou que um curto-circuito no gerador do prédio 1 da unidade de saúde provocou o início das chamas, que espalharam fumaça para todos os andares do prédio antigo. A polícia investiga as causas do fogo. 

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