WILTON JUNIOR / ESTADÃO
Algumas coleções foram completamente perdidas, como a que reunia 12 milhões de insetos. Os preciosos sarcófagos e múmias da coleção egípcia também foram destruídos pelas chamas, bem como uma parte significativa do material etnográfico de indígenas brasileiros WILTON JUNIOR / ESTADÃO

Incêndio no Museu Nacional completa um ano e instituição se prepara para abrir parcialmente em 2022

Museu foi consumido pelas chamas em setembro de 2018; reconstrução já começou e previsão é de que o local deve estar completamente pronto em 2025

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2019 | 10h00

Consumido por um incêndio há um ano, o Museu Nacional passa por um processo de restauração e deve ter algumas salas reabertas ao público em 2022 com uma exposição sobre o bicentenário da independência. E deve estar complementamente pronto em 2025. A previsão é do diretor da instituição, Alexander Kellner.  Ainda este ano, deve começar a restauração da fachada e do telhado. Em setembro do ano que vem, a expectativa é que comece a recuperação do interior do palácio. O museu tem cerca de R$ 70 milhões já disponíveis para as obras.

Em 2 de setembro de 2018, um domingo, um curto-circuito num aparelho de ar condicionado no térreo do Palácio São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, deflagrou um incêndio que consumiu durante seis horas boa parte do acervo do Museu Nacional. Instituição museológica e de pesquisa mais antiga do País, o Museu Nacional tinha acabado de completar 200 anos - o aniversário foi em junho de 2018.   

As chamas consumiram total ou parcialmente pelo menos 80% do acervo, um dos mais importantes da América Latina nas áreas de ciências naturais e antropológicas. Algumas coleções foram completamente perdidas, como a que reunia 12 milhões de insetos. Os preciosos sarcófagos e múmias da coleção egípcia também foram destruídos pelas chamas, bem como uma parte significativa do material etnográfico de indígenas brasileiros. O icônico trono do rei africano de Daomé, um presente recebido por D. João VI em 1811, não sobreviveu. O fogo destruiu também partes históricas do próprio palácio, como a sala do trono, que tinha o teto adornado com deusas da mitologia grega.

“A perda foi muito alta, maior do que esperávamos”, avalia o diretor do Museu Nacional, Alexander Kellner, ao fazer um balanço do prejuízo um ano depois da tragédia. “Está todo mundo muito chateado, perdemos muita coisa.”

Mas, em meio à devastação, houve também boas notícias. A peça mais preciosa do museu, o crânio de Luzia - o fóssil humano mais antigo das Américas, com 12 mil anos -, foi salva, com algumas escoriações passíveis de recuperação. Ossos das múmias egípcias foram recuperados, bem como amuletos feitos em metal que estavam nos sarcófagos. Cerâmicas indígenas foram resgatadas e também fósseis de animais pré-históricos e algumas peças de Pompeia e Herculano.

Os meteoritos, que cruzaram a atmosfera para entrar na Terra, também sobreviveram intactos às chamas e ao calor. Entre eles, o Bendegó, um dos maiores já encontrados no país, que faz parte do acervo do museu desde 1888, por iniciativa de dom Pedro II.

Algumas coleções, aproximadamente 19%, que não ficavam no Palácio São Cristóvão foram inteiramente preservadas. É o caso da botânica, de peixes, de mamíferos, de répteis, de anfíbios e da de plantas. Além da biblioteca de obras raras, que também não foi atingida.

Os trabalhos de garimpo nos escombros do incêndio seguem em ritmo acelerado: 50 salas já foram completamente limpas; restando agora apenas 15 a serem garimpadas até o fim deste ano. O telhado provisório já foi instalado, para proteger o prédio das intempéries.

Recursos para recuperação

Os R$ 16 milhões liberados em caráter de emergência pelo governo federal após o incêndio já foram aplicados: aproximadamente R$ 1 milhão foram para a fachada; R$ 10 milhões seguiram para o reforço da estrutura interna do prédio e da cobertura; os demais R$ 5 milhões estão destinados à Unesco, para a elaboração do projeto executivo do restauro.

A doação mais substanciosa recebida pelo museu veio da Alemanha: um total de 230 mil euros (cerca de R$ 1 milhão). Outros R$ 350 mil vieram por meio de doações para o SOS Amigos do Museu. As doações foram todas aplicadas no garimpo e resgate das peças dos escombros, segundo Kellner.

Além disso, a Câmara dos Deputados aprovou uma emenda parlamentar apresentada pelos representantes do Rio, destinando R$ 55 milhões para a reconstrução do museu. Desse total, R$ 43 milhões já foram liberados e aguardam licitações por parte da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que é responsável pela administração do museu.

O governo federal liberou também um terreno anexo ao museu – uma antiga reivindicação. No terreno de 44 mil metros quadrados, será construído um prédio anexo para abrigar laboratórios e atividades educacionais, além da parte administrativa do museu. “O Museu Nacional é muito mais do que a área de exposição”, afirmou a reitora da UFRJ, Denise Pires.

 

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    Renascimento a partir das cinzas

    Pesquisadores estão usando material do próprio incêndio para reconstruir peças em impressoras 3D 

    Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

    28 de agosto de 2019 | 10h00

    RIO - Pesquisadores do Museu Nacional estão usando as cinzas do próprio incêndio para reconstruir com impressoras 3D peças icônicas da coleção. O valor científico do que foi perdido, claro, não pode ser restaurado, mas, do ponto de vista simbólico, é um marco.

    O Museu Nacional mantém parceria com o laboratório do Instituto Nacional de Tecnologia desde 2002, por conta de um projeto de digitalização de obras raras da biblioteca.

    “Posteriormente, surgiu a ideia de usar a tecnologia 3D na paleontologia, com os fósseis”, explicou o paleontólogo Sérgio Alex Azevedo, do Museu Nacional. “Tínhamos como base a tomografia computadorizada e podíamos, por exemplo, saber como era a cavidade encefálica de um dinossauro, ou o que havia dentro de um sarcófago.”

    Desde o incêndio, no entanto, o laboratório tem auxiliado no resgate das peças, identificação e reconstituição. “A gente já fazia modelos em 3D com objetivos científicos, de estudar, por exemplo, o modelo, em vez de usar a peça original”, explicou Azevedo. “Hoje, por exemplo, temos modelos de Luzia, que podem servir como base para restauração do que foi encontrado.”

    Mesmo antes do incêndio, o grupo já estudava materiais alternativos para a impressão - o objetivo era economizar, pois os materiais importados eram mais caros.

    “Quando vimos toda aquela cinza, aquela enorme quantidade de matéria prima que ia para o lixo, tivemos a ideia de testar como material alternativo para a impressão”, explicou. “Todo mundo achou isso o máximo; e, sentimentalmente, é legal mesmo, é bonito. Quando imprimimos uma Luzia, é um símbolo aliado a outro símbolo.”

     

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    Fogo no Museu Nacional destruiu coleção egípcia

    Das 700 peças, oito eram múmias e parte havia sido comprada na época do Brasil Império; algumas peças foram recuperadas

    Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

    28 de agosto de 2019 | 10h00

    RIO - Uma das mais importantes coleções do Museu Nacional foi também uma das mais atingidas pelo fogo: a coleção egípcia. Eram 700 peças - entre elas, nada menos que oito múmias - a grande maioria comprada, pessoalmente, por dom Pedro I e, posteriormente, por dom Pedro II.

    As múmias e seus sarcófagos foram inteiramente perdidos, embora alguns ossos tenham sido preservados pelo fogo. Amuletos que estavam dentro dos sarcófagos também sobreviveram, bem como estatuetas, uma delas a do sacerdote Menkheperr - a única do mundo que o representa como faraó e, por isso mesmo, considerada raríssima.

    “Era uma das maiores e mais importantes coleções da América Latina e do mundo”, afirmou o arqueólogo do Museu Nacional Pedro Luiz Von Seehausen, especializado em Egito. “O impacto do fogo foi muito grande, eram muitas peças de madeira e múmias; mas o que era de metal e de pedra, conseguimos resgatar.”

    Uma das boas surpresas foi a recuperação do escaravelho e de outros oito amuletos que estavam dentro do esquife da múmia da dama Sha-Amun-Em-Su, datada de 750 a.C. - um dos poucos sarcófagos do mundo que nunca tinham sido abertos. Pesquisadores, no entanto, conheciam o conteúdo do esquife porque ele tinha sido tomografado em 2005 e conseguiram achar as peças em meio aos escombros.

    A múmia foi um presente dado a dom Pedro II, durante uma visita ao Egito em 1876. O monarca gostou tanto do presente, que o deixava em seu escritório e, contrariando a tradição da época, resolveu não abrir o sarcófago. A maior parte da coleção, no entanto, havia sido adquirida por dom Pedro I, das mãos de um negociante argentino.

    Os pesquisadores conseguiram recuperar também vários shabtis, estatuetas de 10 a 60 centímetros que eram colocadas nos esquifes para cumprir tarefas que os mortos poderiam ser invocados a realizar no outro mundo. Algumas estelas, placas em rocha ou madeira com cenas do cotidiano e textos, que eram usadas em epitáfios, também foram encontradas.

    Os ossos das múmias que sobreviveram ao fogo poderão, agora, ser estudados. “Estudos químicos que não podíamos fazer antes podem trazer informações importantes sobre alimentação e doenças, por exemplo”, afirmou o arqueólogo.

    O trabalho de garimpo nas salas da coleção egípcia ainda não foi concluído e Seehausen espera ainda ter novas boas notícias. “Perder as múmias foi um processo devastador, mas, apesar da tragédia, conseguimos recuperar muita coisa”, resume o especialista. “Ainda temos uma coleção relevante, com peças raríssimas; pensamos que tínhamos perdido tudo, mas demos o sangue para resgatar o que podíamos.”

     

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