Clarissa Thomé/Estadão
Clarissa Thomé/Estadão

Laudo aponta ferimentos por objeto cortante em morto na Cidade de Deus

Famílias dizem que rapazes foram executados; delegado levanta hipótese de assassinatos terem sido cometidos por milicianos

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2016 | 14h22

RIO - Segundo a família da vítima, a declaração de óbito de Leonardo Martins da Silva Júnior, de 20 anos, um dos sete mortos após operação policial na Cidade de Deus, mostra que ele teve ferimentos por ação “perfuro contundente”. Para o pai, o pastor Leonardo Martins da Silva, de 45, não há dúvida de que o filho foi executado. “Ele não tinha apenas ferimento à bala. Ele foi esfaqueado”, afirmou. 

A madrasta reagiu inconformada. “Eu não estou aqui para defender criminoso. Ele era traficante. Mas o policial se formou para fazer o bem. Por que não o prenderam?”, indagou Leila Martins da Silva, de 50.

Viviane Gonçalves, mulher de Rogério Alberto de Carvalho Júnior, de 34 anos, não ficou com a declaração de óbito, mas também disse que encontrou o marido no brejo, com a perna cortada, marcas de facas no pescoço e um tiro na nuca. “Eu quero o laudo do IML para provar que meu marido foi assassinado. Foi uma covardia. A polícia quis se vingar porque acham que o helicóptero foi abatido.”

Fabio Cardoso, delegado da Divisão de Homicídios, disse que esperava os laudos do Instituto Médico-Legal para comprovar se houve tiros à queima roupa e lesões que poderiam mostrar execução. Ele ressaltou, ainda, que não sabe as circunstâncias em que essas pessoas foram mortas. “O fato é que houve sete pessoas mortas na Cidade de Deus. Familiares e moradores acharam esses corpos, os tiraram da mata e os colocaram em uma via interna. O que se sabe é que no sábado houve operação para repressão do tráfico. Mas também houve confronto entre traficantes e milicianos da favela vizinha. Não descartamos nenhuma hipótese”, afirmou.

O pai de Leonardo refutou a afirmação. “O último confronto (com milicianos) foi na sexta-feira. Meu filho foi morto na madrugada de domingo, na mata. O Bope (Batalhão de Operações Especiais) estava na mata.” Ele disse esperar que seja feita investigação das mortes.

Além de Martins Júnior e Carvalho Júnior, foram identificados Leonardo Camilo da Silva, de 30 anos, Marlon César Jesus de Araújo, de 22, Robert Souza dos Anjos, de 24, Renan da Silva Monteiro, de 20, e Enzo João Beija da Silva, de 17 anos. 

Eletricista. A Secretaria de Administração Penitenciária informou que dos seis adultos mortos, somente um não havia sido preso: o eletricista Leonardo Camilo da Silva, primo do meia Camilo, do Botafogo. A mulher dele Rafaela Alves Silva, de 22 anos, contou que o marido saiu para correr na manhã de sábado. “Acho que o confundiram com criminoso, acertaram ele no braço, ele tentou se esconder, e foram atrás. Depois cortaram ele, e deram tiro nas costas e na cabeça.” Leonardo tinha três filhos, de 10 anos, 7 anos, e 1 mês. “Foi uma chacina.”

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