Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Letalidade policial aumenta 20% no ano; Rio tem maior nº de casos

Estado ainda está na contramão no número de agentes mortos, que avançou 19,5%, mas no País caiu 4,9%

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

10 Agosto 2018 | 03h00

RIO - As mortes decorrentes de ações policiais aumentaram 20,5% no País em 2017, atingindo um total de 5.144 vítimas - e no Rio o índice ficou 21,2% maior. Segundo o anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, houve 1.127 óbitos causados por intervenção da polícia no ano passado - uma média de três por dia -, ante 925 em 2016.

O levantamento confirmou uma estatística já conhecida: o Rio tem também o número mais alto de policiais mortos. Em 2016, 87 foram vitimados (em serviço ou de folga); no ano seguinte, foram 104. 

Isso significou uma elevação de 19,5%, quando no País, em média, o índice de agentes de segurança assassinados caiu 4,9% no período, quando 367 agentes da ativa perderam a vida. Em 2018, já foram mais de 60 policiais mortos, o que deve fazer com que o Estado mais uma vez detenha o recorde. Desde fevereiro deste ano, uma intervenção federal colocou a segurança pública do Rio sob comando das Forças Armadas. 

A auxiliar de serviços gerais Rosilene Alves é mãe de Maria Eduarda, morta aos 13 anos no pátio de sua escola, na zona norte carioca, em março de 2017. A adolescente foi vítima de três tiros de fuzil disparados por policiais. Ela crê que será feita justiça. A garota foi vítima de disparos feitos por policiais contra suspeitos que estavam na rua. Um cabo da PM foi indiciado pelo crime.“Nada mudou na conduta dos policiais. Eles continuam atirando. Olham para o morador da comunidade e não veem criança, trabalhador. Agem como se todo mundo fosse traficante. Sou cristã e perdoei, mas queremos justiça.” 

Críticas. Para a cientista social Silvia Ramos, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, o Rio deve bater marca histórica de mortes em operações policiais neste ano. Ela espera reviravolta no projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), que reduziu os índices de violência, ainda que o governo esteja esvaziando o plano desde o ano passado. “Com a intervenção, a gente esperava que houvesse uma determinação de proteção da vida”, lamentou. “Os problemas de segurança do Rio não são de outro mundo, é preciso parar de afirmar que nada dá certo aqui. Não é fácil, mas é possível reverter.”

O coronel Robson Rodrigues, antropólogo e ex-chefe do Estado-Maior da PM do Rio, não acredita que a atual política de segurança seja aprimorada no curto prazo. A estratégia, segundo ele, tem mais ênfase no enfrentamento a tiros do tráfico de drogas do que em ações pontuais e inteligentes contra o crime organizado. “O que vemos é investimento em um erro, com baixas para todos os lados.”

Outros Estados. A quantidade de mortos pelas Polícias Militar e Civil no Estado de São Paulo chegou a 940 no ano passado, mas a taxa por 100 mil habitantes é de 2,1. Taxas elevadas foram constatadas no Acre (4,6), no Pará (4,6) e no Amapá (6,6). 

Militares vão ajudar em treinamentos

A Secretaria de Estado de Segurança do Rio divulgou nota informando que foram estabelecidas diretrizes para atuação policial em “áreas sensíveis”, com “elevado risco de confronto armado com infratores da lei”, no sentido preservar a vida dos moradores e dos agentes. A nota diz ainda que o Gabinete de Intervenção Federal ofereceu as estruturas do Exército para treinamentos de PMs com esse fim. 

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