Carlos Moraes/Estadão
Carlos Moraes/Estadão

Liga das Escola de Samba do Rio decide cancelar ensaios técnicos do carnaval

Agremiações reagiram à decisão; 'estão achando que vão destruir o carnaval, mas não vão conseguir', disse o presidente da Mangueira;

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2017 | 16h25

RIO - A Liga das Escolas de Samba do Rio (Liesa) confirmou nesta quarta-feira, 4, que não fará os tradicionais ensaios técnicos na Marquês de Sapucaí para o carnaval de 2018, por falta de recursos.

 O presidente da entidade, Jorge Castanheira, informou que “o caixa está baixo” por conta do congelamento dos preços dos ingressos “há seis anos”, e que não há como arcar com o custo dos ensaios, de R$ 3,5 milhões a R$ 4 milhões ao ano.

As escolas culpam a prefeitura do Rio, que está atrasada com o repasse de R$ 13 milhões da subvenção às 13 escolas do Grupo Especial, pela suspensão dos testes, que já fazem parte do calendário carnavalesco carioca. “Eles estão achando que vão destruir o carnaval, mas não vão conseguir”, disse o presidente da Mangueira, Chiquinho da Mangueira.

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Segundo Jorge Castanheira, a Riotur, órgão da prefeitura que administra o Sambódromo e organiza o carnaval, só com um patrocínio seria possível realizar os ensaios técnicos. “São seis anos sem aumento de preço do ingresso. Não temos como arcar. Há 15 anos bancamos sozinhos os ensaios. Só se tivermos um patrocínio”, afirmou.

“São gastos com segurança, sonorização, montagem de palcos para os shows que apresentamos. As escolas também não têm dinheiro. Elas gastam de R$ 200 mil a R$ 300 mil pelos ensaios, levam às vezes uma minialegorias. A burocracia da prefeitura está atrasando os repasses. Não fizeram o empenho dos R$ 13 milhões, só de R$ 6 milhões”, continuou.

O anúncio do fim dos ensaios provocou revolta em dirigentes e integrantes de escolas de samba. Os testes, realizados ininterruptamente desde 2002 entre dezembro e o carnaval, servem para as escolas afinarem detalhes da produção dos desfiles. São assistidos por cerca de 50 mil pessoas – boa parte delas, gente pobre que não tem dinheiro para comprar ingressos para as apresentações oficiais.

Como principais atrações dos eventos estão as alas coreografadas, que já aparecem com a maquiagem oficial, a passagem da bateria, as performances da comissão de frente e dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, além das rainhas de bateria. É também nesses ensaios que os diretores das escolas afinam a harmonia, testam a luz e o tempo de desfile.

“Eles estão achando que vão destruir o carnaval, mas não vão conseguir. Estão desmoronando a festa. O fim dos ensaios é uma facada no coração das escolas e, mais ainda, da população. É inadmissível. Tudo o que o (prefeito Marcelo) Crivella (PRB) disse que faria pelo carnaval ele descumpriu. Disse que iria quebrar o preconceito que há contra ele por ser (bispo licenciado) da Igreja Universal do Reino de Deus. Só podia ser teatro”, afirmou, revoltado, Chiquinho da Mangueira. Este ano, a escola levará à avenida um enredo crítico ao tratamento dispensado pela gestão Crivella ao carnaval, intitulado “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco!”

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As escolas dizem se sentir traídas por Crivella que, durante sua campanha, prometeu manter o apoio que as gestões anteriores deram aos desfiles, quiçá aumentá-lo. O que se viu foi o oposto: a verba para cada escola do Grupo Especial – atualmente, 13 – baixou de R$ 2 milhões para R$ 1 milhão. A primeira parcela, de R$ 250 mil, seria depositada em julho, mas as escolas afirmam que não receberam nada. O governo federal prometeu R$ 615 mil a cada uma, via Caixa Econômica Federal, mas os trâmites ainda correm.

Em entrevista à TV Globo, o prefeito disse que está honrado sua palavra. “O que nós combinamos seriam R$ 2 milhões por mês. Estamos em dia. Quem não está em dia é o governo federal. Eles (dirigentes) foram lá e pediram ajuda, e não deram”.

Segundo a Riotur, quem cancelou os ensaios foi a Liga das escolas de Samba (Liesa). O órgão explicou que não repassa verba especificamente para os ensaios, e sim um montante fechado que é usado para as escolas como elas definem. A Riotur admite que houve atraso nos repasses, mas afirma que o prefeito autorizou no dia 19 de setembro a liberação do crédito de R$ 6 milhões para o pagamento à Liesa referente às parcelas de julho, agosto e setembro da subvenção.

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O dinheiro não foi repassado ainda por uma questão burocrática, sustenta: “A Riotur enviou a minuta dos contratos para a Liga das Escolas de Samba, que até o momento não assinou para a necessária publicação no Diário Oficial. Portanto, o pagamento que está disponível desde o dia 19 de setembro só depende da Liesa.”

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Reinventar o carnaval

Para a pesquisadora de carnaval e integrante da Velha Guarda do Império Serrano Rachel Valença, o fim dos ensaios é revoltante. “Se as escolas tiveram uma perda de R$ 1 milhão, por que não reduzem, por exemplo, um carro alegórico, tornando o desfile mais ágil? O ensaio técnico beneficia a população, o povo que gosta realmente das escolas”, opinou.

“Sugiro que as musas, que não representam tradição no samba nem elemento indispensável ao enredo, paguem para sair nas escolas. O dinheiro arrecadado com as musas pagaria o valor para cada escola do ensaio técnico, cerca de R$ 270 mil para cada escola. Cinco musas, seis musas rateariam esse valor para proporcionar ao público o ensaio técnico”, sugeriu.

Junior Schall, integrante da comissão de carnaval da Portela, acredita que as escolas terão de se mobilizar para conseguir levar o mesmo número de componentes que participam dos ensaios – cerca de 2.500, no caso da Portela, quando no “dia D” são 3.200 – para a quadra ou ruas, a fim de ajustar o desfile.

“É uma perda grande. Triste para o público. Em dias de escolas muito populares, como Portela, Mangueira e Salgueiro, eram 60 mil pessoas cantando. Os ensaios são importantes no calendário carnavalesco, e uma oportunidade para as escolas mobilizarem o maior número possível de componentes antes do desfile”, lamentou.

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