WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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Livro de ocorrência de hospital relata que Paes ameaçou médica

No texto, está registrado que prefeito foi 'bastante grosseiro' com funcionários após pedido de documento para abrir prontuário

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

15 de março de 2016 | 16h06

O livro de ocorrências do Hospital Lourenço Jorge, onde o prefeito Eduardo Paes (PMDB-RJ) discutiu com uma médica no domingo, 13, reforça a versão de pacientes e funcionários do hospital, de que o prefeito foi agressivo com a plantonista. No documento, está registrado que o prefeito foi “bastante grosseiro” com funcionários depois que foi pedido um documento para abrir o prontuário do filho de Paes, Bernardo, de 11 anos, que havia se machucado em uma queda. 

“O senhor prefeito começou a gritar de forma ríspida, enquanto deitávamos o filho para ser avaliado pela cirurgiã de plantão. Disse que a médica não sabe fazer o atendimento - e que ele agora não estava falando como cidadão, e sim como prefeito, seu patrão, e a demitiu”, diz trecho do resumo do plantão de 13 de março. “Para finalizar, disse o prefeito Eduardo: ‘Não irá trabalhar em nenhuma unidade mais no município do Rio de Janeiro”, encerra o documento. 

Para o presidente do Sindicato dos Médicos, Jorge Darze, o livro de ocorrências e o depoimento das testemunhas mostram que Paes “não está falando a verdade” ao dizer que cobrou melhor atendimento, após ouvir queixas de pacientes na fila. “Não há a menor dúvida do que houve. Os fatos são incontestáveis e, não, ele não vai ficar impune”, afirmou o presidente. O Sindicato dos Médicos vai representar contra Paes no Ministério Público do Trabalho por assédio moral. “No início do mandato dele, ele esteve no Lourenço Jorge e disse que os médicos não estavam no plantão porque não tinham vergonha na cara. O sindicato apurou na época que os médicos não existiam, não havia ninguém escalado. Essa agressividade tem sido a prática do prefeito. Ele se vê contrariado e transfere a responsabilidade”, afirmou.

Para o prefeito Eduardo Paes, a reação do sindicato foi corporativista. “Pago em dia os salários, o hospital tem estrutura e as pessoas têm que ser atendidas com acolhimento”, afirmou Paes nesta terça-feira, 15, em entrevista ao jornal O Globo. “Ela perguntou se eu tinha preenchido a ficha e disse que não. Falei que ela poderia continuar a atender o meu filho enquanto a minha mulher ia preencher a ficha. Reclamei como qualquer cidadão deve reclamar. As pessoas têm que acolher melhor o cidadão. O meu filho não furou fila porque não tinha. Vou continuar usando a rede pública. Estou com vontade até de ficar mais doente (eu e não o meu filho) para usar hospital público”.

Nas redes sociais, está circulando relato de um funcionário que assistiu ao bate-boca. “A médica explicou que eles tinham que abrir o prontuário para ele ser atendido, na maior educação. O prefeito surtou, esculhambou a médica, disse que ele era o patrão. (...) Todo mundo ficou pasmo! Porque foi todo mundo mega educado, o garoto estava andando, conversando. (...) Ele não aceitou ser tratado como um paciente normal, ele queria passar na frente de todo mundo, inclusive os pacientes filmaram ele furando a fila da radiografia”.

Ao Estado, a desempregada Camila Carolina da Silva, de 22 anos, que acompanhava o marido no exame de raio-x, contou que os pacientes saíram em defesa da médica diante da reação do prefeito. “Ele disse que ela não prestava. Ela ficou muito abalada. Chorou a tarde toda”.

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