FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Mãe de adolescente morto na Maré diz que disparo partiu de blindado

Estudante de 14 anos foi ferido a caminho da escola e, no hospital, teria revelado para a mãe que tiro partiu de blindado da polícia. Velório nesta quinta foi marcado pela comoção

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2018 | 17h58
Atualizado 22 Junho 2018 | 15h26

RIO - Os pais de Marcos Vinícius da Silva, de 14 anos, morto nesta quarta-feira, 20, em uma operação das forças de segurança no Complexo da Maré, zona norte do Rio, acusam a polícia do crime e prometem processar o Estado. Em um depoimento emocionado, a diarista Bruna da Silva contou que, antes de ficar inconsciente, o filho disse que o disparo que o atingiu partiu de um blindado. A Polícia Civil, que coordenou a operação, limitou-se a dizer que o caso está sendo investigado pela Delegacia de Homicídios.

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Atrasado para a escola, o adolescente saiu de casa uniformizado, com a mochila nas costas, quando foi surpreendido pelo início da operação. Resolveu, então, voltar para casa, mas, no meio do caminho, acabou sendo atingido pelas costas. “Quando eu cheguei à UPA (Unidade de Pronto Atendimento), meu filho estava vivo e falou ‘Mãe, eu sei quem atirou em mim, eu vi quem atirou’”, contou Bruna. “Eu perguntei quem tinha atirado e ele respondeu: ‘Foi um blindado, mãe, que não viu minha roupa de escola’.” Depois disso, continuou ali, ainda segurando a camiseta ensaguentada do uniforme do filho. “Ele começou a gemer, a pressão caiu e não conversamos mais. Parece que estava esperando eu chegar.”

Mais cedo, no Instituto Médico-Legal (IML), a diarista já havia acusado a polícia pelo crime: “Espero justiça. Calaram meu filho, mas não vão me calar. Por ele, eu vou falar.” Segundo ela, testemunhas relataram que pediram para que os policiais não atirassem. “Uma moça me disse que gritou: ‘Não atira, é uma criança, ele está com roupa de escola’. Só que eles não ligaram e atiraram’.” Ele foi enterrado à tarde no Cemitério São João Batista, na zona sul, em clima de grande comoção. 

Prefeitura. As 44 escolas que funcionam dentro do Complexo da Maré não funcionaram nesta quinta-feira, 21. Diversos professores da rede municipal e o próprio secretário de Educação, César Benjamin, afirmaram que helicópteros usados na operação dispararam tiros contra os colégios. A ONG Redes da Maré contabilizou nas áreas próximas às escolas mais de 100 marcas de tiro. 

Pela primeira vez, a prefeitura cedeu o Palácio da Cidade para o velório de uma vítima da violência e decretou luto oficial de três dias. “O velório no Palácio é um gesto. A população do Rio, eu, o secretário de Segurança, não aguentamos mais ver crianças inocentes morrendo em tiroteios que, a experiência mostra, têm tido pouco resultado efetivo no combate ao crime organizado. Nós precisamos de ações de inteligência que evitem a morte de inocentes”, afirmou no velório o prefeito Marcelo Crivella (PRB). Procurado, Gabinete de Intervenção afirmou que não iria se manifestar sobre a operação. 

‘Face hedionda’

E Marcos Vinícius não foi o único adolescente morto na cidade nesta quarta-feira, 20. Outro jovem, de 14 anos, faleceu na Vila Vintém, zona oeste. Guilherme Henrique Pereira estava andando de bicicleta, quando foi atingido por uma série de disparos feitos por traficantes que estavam em um carro e passaram pela rua atirando. Outras duas pessoas ficaram feridas.

“As mortes de crianças vítimas de balas perdidas nas favelas, por causa de confrontos entre policiais e traficantes ou disputas entre facções criminosas rivais, são a face mais hedionda da violência no Rio de Janeiro”, afirmou o presidente da ONG Rio da Paz, Antônio Carlos Costa, que questionou a eficácia da operação. “Já foram oito crianças mortas este ano. Que ganho para a segurança pública justifica a morte de um menino morador de favela? Quem daria a vida de um filho em troca da prisão ou morte de um bandido?” 

 

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