Mãe de estudante morto no Rio critica secretário de segurança

Em ato contra violência que tirou a vida de seu filho há três dias, Mausy Schomaker disse que "dava na cara de Beltrame" se ele aparecesse

Felipe Werneck, O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2015 | 16h48

Rio - Três dias após o assassinato do estudante de biologia Alex Schomaker Bastos, de 23 anos, no ponto de ônibus em frente ao campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em Botafogo, na zona sul do Rio, cerca de 200 pessoas realizaram um ato no local do crime, na manhã deste domingo, dia 11.  A manifestação foi marcada por críticas ao governo estadual e ao secretário de Segurança, José Mariano Beltrame.

Aos prantos, a mãe do estudante, Mausy Schomaker, sentou-se no banco da parada de ônibus segurando uma cartaz com a frase “Eu sou Alex” e a última foto do filho. Em discurso emocionado, ela criticou as políticas social e de segurança pública do Estado. “Eu dou na cara do Beltrame se ele aparecer aqui”, disse. Ninguém do governo compareceu.

Morto com seis tiros, Alex estava prestes a se formar. “O meu menino iria receber o diploma no dia 26. Pra que isso serve agora? Ele não vai ser biólogo, não vai ter filhos e não vai para Galápagos, como tanto queria. Esse buraco nunca mais vai fechar. Foi aberto pela violência e pelo pouco caso das autoridades Só a educação vai mudar isso aqui”, discursou a mãe, que é professora.

Mausy rebateu a informação de que Alex teria reagido ao assalto antes de ser baleado. “Existe norma para ser assaltado? Dizem que meu filho reagiu ao assalto, que ele estava num lugar perigoso tarde da noite. Mas que história é essa? Todos têm o direito de pegar o ônibus que quiserem na hora que quiserem.” 

Em cartazes colados no ponto e espalhados pelo chão da praça, amigos mostravam sua dor e indignação: “O Alex foi mais uma vítima da brutalidade de uma sociedade extremamente desigual”.

Mausy disse que não tem como perdoar os assassinos. “O meu coração não tem capacidade de perdoar. Mas não quero vingança. Quero que a lei se cumpra”, discursou. “Essa violência maldita é culpa do Estado. A gente tem que votar melhor. Eu já peguei em armas para lutar contra a ditadura. Sou de esquerda e vou morrer de esquerda. Acredito em sonho, ideal e objetivo. O meu objetivo agora é honrar o nome do meu filho.”

A mãe disse que vai matar a saudade de Alex voltando ao local do crime para pegar ônibus. O amigo da família Luiz Rodolfo Viveiros de Castro pediu que Mausy lhe telefone para acompanhá-la, sugerindo uma espécie de mutirão de moradores e amigos.

“Agora vamos ter uma viatura da PM aqui por dois meses, depois isso desaparece. Precisamos cobrar mais, mas fazer também”, discursou Castro. Ele atacou a política de segurança do Estado, que segundo ele “concentra seus esforços para matar pobres nas favelas e reprimir manifestações”.

A namorada de Alex, Beatriz, disse não ter sentimento de vingança. “Se tivesse um momento a sós com os assaltantes, contaria a eles sobre a pessoa maravilhosa que ele era.” Ela pediu descupas à família antes de dizer que queria ter morrido no lugar de Alex. “Queria que tivesse sido eu. Ele era brilhante. Foi meu primeiro namorado, meu primeiro amor. Vou morrer amando-o.”

Beatriz contou que o interesse de Alex por biologia surgiu quando ele tinha 12 anos, após a leitura do livro “A Origem das Espécies”, de Darwin. No ano passado, Alex ganhou o prêmio de melhor trabalho de iniciação científica no Congresso da Sociedade Brasileira de Genética. 

Após os discursos, o grupo formou um círculo de mãos dadas e “abraçou” o ponto de ônibus. Depois, fez uma manifestação em frente ao portão da UFRJ, na Avenida Venceslau Brás. A maioria usava roupas brancas, e muitos levavam cartazes com a última foto do estudante e a inscrição “Eu sou Alex”. Mausy contou que estava juntando dinheiro para dar de presente ao filho uma viagem às ilhas Galápagos. “Dei uma bicicleta de Natal que ele não teve tempo de usar.”

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