Alfredo Mergulhão/Estadão
Alfredo Mergulhão/Estadão

Magé vê cenário de destruição após protestos por morte de criança

A morte de um menino de 5 anos durante uma ação policial provocou uma onda de protestos e 12 ônibus foram incendiados; cidade do RJ vive clima de tensão

Alfredo Mergulhão , O Estado de S.Paulo

03 Abril 2016 | 14h52

RIO - Magé amanheceu em um cenário de  destruição neste domingo, 3, após 12 ônibus terem sido incendiados na véspera. Os atos de vandalismo ocorreram durante protesto contra a morte de  Matheus Santos Moraes, de 5 anos, durante uma ação policial na favela da Lagoa.

O clima na cidade é de tensão. No começo da manhã houve nova troca de tiros entre policiais e bandidos na comunidade. As poucas lojas que funcionaram no domingo resolveram fechar as portas por volta das 12h30, quando circulou a informação de que haverá mais protestos no centro da cidade. O policiamento segue reforçado pelo Batalhão de Choque, que veio da capital fluminense. 

O local mais afetado na manifestação de sábado foi a rodoviária, onde estão as carcaças de dez ônibus queimados. Três guinchos fazem o trabalho de remoção dos veículos. Funcionários da concessionária de energia elétrica trabalham para recompor a rede. Parte do centro da cidade ainda está sem luz. As chamas do fogo colocado nos ônibus atingiu a rede elétrica. 

"Estava tudo escuro em frente à rodoviária quando teve novo tiroteio. Ninguém via nada, não sabia para onde correr. Isso aqui estava um terror. Parecia a Síria", disse o guarda municipal Adailton José Barbosa, de 41 anos. Uma filial da Ricardo Eletro foi saqueada e os funcionários passaram a manhã verificando os produtos subtraídos e danificados. 

Segundo a Polícia Militar, uma equipe do 34º Batalhão realizava um patrulhamento na tarde deste sábado (02) na Rua dos Operários, no bairro Mundo Novo, onde fica a favela, quando os agentes se depararam com criminosos vendendo drogas. Segundo a nota, "houve um breve confronto". No tiroteio, a criança foi atingida na cabeça. Matheus ainda foi socorrido e levado para o Hospital Municipal de Magé, mas não resistiu ao ferimento e morreu. Outras três pessoas, moradores da comunidade, também foram baleadas, mas não correm perigo de morte.

Os policiais militares envolvidos na ação, logo após o ocorrido, apresentaram-se diretamente ao batalhão e foram ouvidos em um inquérito policial militar. De acordo com o delegado Giniton Lages, da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, o fato de os policiais não terem comparecido imediatamente à delegacia prejudicou a investigação, possibilitando que vestígios importantes fossem perdidos em razão da comunicação tardia. 

Lages informou que vai comunicar a Corregedoria Geral Unificada (CGU). Os agentes envolvidos no tiroteio foram ouvidos e suas armas apreendidas. Será realizada uma reprodução simulada dos fatos para confrontar as versões apresentadas pelos militares e pelas testemunhas.

O pedreiro Helio de Sousa Gomes, de 49 anos, questiona a explicação dos policiais. Ele mora ao lado da casa de Matheus, que brincava com sua neta quando foi baleado. "As pessoas estavam bebendo cerveja na rua quando dois policiais entraram atirando. Eu tinha acabado de entrar em casa quando ouvi os disparos. Olhei para trás e vi todos deitados no chão. Foi um desespero", contou. O corpo do menino é velado em uma capela no cemitério da cidade. O enterro será nesta tarde.

O secretário de Ordem Pública de Magé, Nelson Vinagre, disse que o protesto violento pegou a gestão do município desprevenida. "Somos uma cidade pacata, pequena. Não dá para imaginar que as coisas chegariam a esse ponto. Um ônibus foi incendiado em frente a delegacia. Estamos com sensação de filme de terror".

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