Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Novo ‘gigante de aço’ da Marinha do Brasil aporta no Rio

Para aposentar porta-aviões São Paulo, Brasil recebe equipamento da Grã-Bretanha que tem 204 metros de comprimento e 22 mil toneladas

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

25 Agosto 2018 | 16h14

Um gigante de aço com quase 204 metros de comprimento, 22 mil toneladas e capacidade para fazer três vezes o trajeto entre a América do Sul e a Europa sem precisar parar para abastecer atracou no sábado, 25, no Rio de Janeiro. Novo equipamento de guerra da Marinha do Brasil, o Porta-Helicópteros Multipropósito Atlântico consegue abrigar até 17 aeronaves e será o maior navio da esquadra brasileira. Ele vem para substituir o porta-aviões São Paulo, que será aposentado.

O navio, lançado ao mar pela marinha britânica há duas décadas com o nome de HMS Ocean, foi adquirido ao custo de 84 milhões de libras (R$ 440 milhões pelo câmbio atual). “É um navio bem novo, em ótimas condições. Ele poderá operar por mais 20 ou 30 anos”, diz o almirante Luiz Roberto Valicente, diretor do Centro de Comunicação Social da Marinha. “Este navio foi feito para ser um capitânia, e ele será o capitânia da nossa esquadra.”

O navio tem capacidade para acomodar até 806 fuzileiros navais. Participaram da viagem inaugural 303 militares que compõem a tripulação fixa do navio e estavam havia cinco meses fora do Brasil, realizando cursos e entendendo o funcionamento da embarcação com os britânicos. A preparação dos militares brasileiros estava inclusa no acordo de compra.

O processo de transferência da marinha britânica para a brasileira foi concluído em julho. Desde então, o Atlântico se tornou uma das principais armas de monitoramento da força nacional. “Ele possui quatro radares, sendo um deles 3D, com mais de 200 quilômetros de alcance e que traz uma nova capacidade para a Marinha do Brasil de compilação de área e busca de informações na área de operações”, explica o comandante André Felipe de Carvalho, chefe de operações do Atlântico.

Em seu convés de voo, o navio tem espaço para pouso de sete helicópteros e é capaz de operar seis aeronaves simultaneamente. Outras dez podem ficar armazenadas em um hangar no pavimento inferior, para onde os helicópteros – ou qualquer outro veículo – são transferidos por meio de dois elevadores. O Atlântico é compatível com todos os modelos de helicóptero utilizados pela Marinha.

Navio abrigará cúpula da Marinha em caso de confronto

O equipamento também foi projetado para abrigar a cúpula da Marinha em caso de confronto. “É possível que se opere do próprio navio um Estado-Maior embarcado, ou é possível fornecer informações para uma força-tarefa anfíbia embarcada”, explica Carvalho.

No sábado, 25, o almirante Luiz Henrique Caroli chegou ao Atlântico e comemorou a aquisição. “Este navio chega para manter as tradições da Marinha e da aviação naval. Ele vai dar continuidade a uma tradição que foi começada pelo (porta-aviões) Minas (Gerais, o primeiro porta-aviões da Marinha do Brasil). O São Paulo veio depois, e agora o Atlântico vai dar continuidade e manter viva a aviação naval do Brasil”, afirma. “A Marinha espera muita coisa do Atlântico.”

O porta-aviões São Paulo, que sempre demandou grandes custos com manutenção, será desativado. Apesar de não haver ainda uma confirmação oficial, seu destino mais provável é a venda em forma de sucata.

Única mulher na tripulação fixa lidera área de saúde

Entre os 303 tripulantes que compõem a tripulação fixa do Atlântico há apenas uma mulher. A comandante Márcia Freitas atua na Marinha há 17 anos e é chefe do Departamento de Saúde do navio, algo que ela própria batalhou para conseguir. “É o primeiro Departamento de Saúde de um navio operativo”, diz Márcia, que é formada em Odontologia.

O departamento tem um Centro de Terapia Intensiva (CTI) com um leito e outro será instalado nas próximas semanas. Há ainda salas para recuperação de traumas e para cirurgias de baixo e médio portes. Uma clínica odontológica também compõe a área.

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Análise: Objetivo é melhorar tecnologia da frota naval brasileira

O novo líder da armada do Brasil, o gigante PHM A-140 Atlântico, chega com festa e uma primeira missão bem definida: impedir que a frota de combate perca de vista as tecnologias navais mais recentes.

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2018 | 16h26

O novo líder da armada do Brasil, o gigante PHM A-140 Atlântico, chega com festa e uma primeira missão bem definida: impedir que a frota de combate perca de vista as tecnologias navais mais recentes.

Sem receber investimentos até 2007, a Marinha ganhou qualidade com a contratação de toda uma força de submarinos avançados, o estaleiro onde estão sendo construídos as primeiras quatro unidades, uma nova base de operações e um programa para renovação dos modelos de superfície. Deu certo pela metade.

A crise econômica adiou os prazos dos submersíveis do Pro Sub e cancelou as pretensões do Pro Super, que contemplava 11 navios, cinco dos quais seriam fragatas de alta sofisticação – um negócio de US$ 6 bilhões, ao preço de 2010. Apenas agora, oito anos depois, um novo plano de reequipamento, bem mais modesto, está sendo executado. O primeiro pacote prevê a compra de quatro corvetas de 2.700 toneladas, talvez pouco mais. As embarcações da classe Tamandaré serão fortemente armadas e terão de ser construídas no País, em associação de fabricantes estrangeiros e nacionais – o investimento passa de US$ 1,8 bilhão.

O A-140 é o antigo HMS Ocean, capitânia do Reino Unido até a entrada em operação do porta-aviões Queen Elizabeth, comissionado em agosto de 2017. Recebido em 1998, com longa experiência em combate, passou por um intenso programa de modernização entre 2012 e 2014. Saiu tinindo da doca de recuperação.

Há pouco mais de dois meses, na revisão de recebimento pela Marinha do Brasil, na base britânica de Davenport, o navio exigiu poucos reparos; ganhou pintura, insígnias e identificação. Por outro lado, perdeu alguns recursos, o mais significativo deles, os três canhões Phalanx CIWS de defesa antimíssil.

Na conta da vantagem, manteve o radar digital tridimensional Artisan, capaz de detectar até 900 alvos ao mesmo tempo – pequenos como bolas de tênis, no raio de 200 km, voando a 3,7 mil km/hora. O fornecedor, a BaE Systems, diz que o sistema “tem capacidades ainda mais amplas de detecção e de interferência nos sensores de um eventual inimigo, que não podem ser reveladas”.

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